sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A melhor companhia

Ontem fiz uma coisa que há tempos não fazia: fui ao cinema sozinha. Vi "500 dias com ela". Mas este não é um texto sobre o filme, e sim, sobre ir ao cinema sozinha.
Muitas pessoas não conseguem, nem nos seus piores pesadelos, considerar a possibilidade, por mais remota que seja, de irem ao cinema sozinhas. Passar por uma experiência traumática como essa seria não apenas vivenciar a própria solidão, mas, mais importante e traumático ainda, expor essa solidão para outras pessoas. Só de imaginar a vergonha na sala de espera em meio a casais apaixonados, grupos de amigos, senhorinhas felizes e acompanhadas! Curtir solidão vendo filme sozinha em casa, tudo bem, mas em público?
São pessoas que realmente não conseguem ficar sozinhas. Precisam se apegar a pessoas, prazeres e até mesmo ideias para preencher o vazio que sentem. É o que geralmente fazemos quando somos acometidos pelo tédio e pela solidão. Livros, filmes, companhia... nada parece aplacar a angústia de sentir... nada! Quando estamos nesse estado, a sensação da solidão acompanhada, de estar só na multidão, é sintomática e devastadora.
Mas e se encontrarmos na solidão, neste estar só, o espaço e o tempo necessários para estarmos realmente em boa companhia? Sem escapes, sem fugas, transferências ou auto-enganação. Estar consigo mesmo. E só. Sem precisar de mais nada nem de mais ninguém. Só. Descobrindo o prazer de aprender "a dor e a delícia de ser o que é", como diria Caetano. E encontrar aquele lugar de bem-aventurança justamente no vazio.
Krishnamurti dá duras e boas lições sobre a solidão. "É necessário ficar só, conhecer esse estar só não induzido pelas circunstâncias, esse estar só que não é isolamento, esse estar só que é criatividade, condição na qual a mente já não busca a felicidade nem a virtude, nem cria resistência. A mente que está só é a única que pode encontrar - não a mente contaminada, corrompida pelas próprias experiências. Assim, talvez a solidão, de que todos temos consciência, possa, se soubermos como encará-la, abrir a porta para a realidade."
Ir ao cinema sozinha pode ser um bom exercício. Ontem senti essa plenitude do estar só de que fala Krishnamurti. Tudo bem que cheguei ao cinema atrasada, "perdi" toda a "emoção" da sala de espera e no escuro da sala de exibição, ninguém notou a minha chegada... sozinha. Mas, para minha surpresa, quando o filme acabou e as luzes se acenderam, percebi que havia outras pessoas também desacompanhadas, e uma mulher sentada a duas cadeiras de mim, sozinha, me sorriu. Não sei se o sorriso dizia simplesmente "que filme lindo!", ou "veja só: nós duas aqui, sozinhas, nos divertindo!", ou as duas coisas. Só sei que senti, naquele momento, após o êxtase da solidão plena, a alegria da solidão compartilhada.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A graça do futebol

"No futebol, as sobras, a 'valorização' da posse de bola, o tempo produtivo e o tempo improdutivo, a catimba, o desperdício e a poupança, os 'olés', a impossibilidade de contabilização numérica ou gradual exaustiva, tudo faz parte do jogo. Em certos momentos, quando, por exemplo, uma bola cruza toda a extensão do gol desguarnecido depois de um toque precioso e preciso, ou quando um súbito 'chapéu' coroa inesperadamente um jogador que esboça uma reação já inútil no momento breve, o tempo se distende, como se durasse eternamente por um instante. O placar descreve e não descreve a partida, é 'justo' e 'injusto'. Ao contrário das artes em geral, a competência pode ser contabilizada porque se traduz em gols. Mas ao contrário dos outros esportes, a contabilização ná dá conta do acontecimento."

(Veneno Remédio - O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dia de Sol

A manhã lendo Rubem Braga sob o sol... "Mar diário e enorme, ocupando toda a vida, uma vida de bamboleio de canoa, de paciência, de força de sacrifício sem finalidade, de perigo sem sentido, de lirismo, de energia; grande e perigoso mar fabricando um homem..."
A tarde com o sobrinho, alegria da casa, rei da piscina. Meu pequeno príncipe, enfrentando baleias e tubarões imaginários. Corrida, carro flutuante, pulos no ar, batatinha, "cadê o sol, Miguel?", ginástica na escada, patinhos quein-quein, "que cor é lilás?". A procura do lilás. Tchau, Miguel.
O cheiro do sol na pele mesmo depois do banho. O cansaço bom. E aquela vertigem de felicidade. Gosto de vida bem vivida.
Dia de sol.

sábado, 3 de outubro de 2009

Conversa em bolinhas

- Gosto da versão dele de "Garotos".
- Gosto da versão dele do Charlie Brown.
- Essa eu não conheço.
- "Ela achou meu cabelo engraçado. Proibida pra mim, no way...". Bem baladinha.
- Ah, nunca ouvi.
O ônibus lotado, indiferente à nossa conversa musical, vira na Avenida Presidente Wilson.
- Você conhece a "Quase nada"? "De você, sei..."
- "Quase nada...". Ah! Lembrei! Já ouvi a versão do Charlie Brown, sim.
- E a "Você vai comigo aonde eu for, você vai bem se vem comigo..."?
- Não conheço.
-"Serei seu amigo e seu bem. Fica bem, mas fica só comigo...". Se você quiser te empreso o cd.
- Eu quero. Ah! O livro do Zuenir Ventura chegou!
- Me empresta? E eu preciso te emprestar o livro em inglês e o filme da Renata Agondi.
- Rose, tenho que descer nesse ponto.
A Gabi levanta, mas o semáforo fecha. Volta a sentar.
- Dá tempo de a gente falar mais alguma coisa.
- O que a gente vai falar em cinco bolinhas? Tem que ser algo importante! É mesmo, quanto tempo a gente leva pra falar o essencial? Isso daria um filme... Você tem quatro bolinhas pra me dizer alguma coisa importante!
- Ai... A gente vai no show do Zeca Baleiro!
- Isso eu já sei. Tem que ser alguma coisa que eu não sei.
- O que a gente pode dizer em três bolinhas? Ah! Pintei minha unha de vermelho! Mas isso não é importante...
- É uma banalidade, mas as banalidades também são importantes... Gabi, você tem uma bolinha! O sinal já vai abrir!
- Já sei! Ontem passei no meio de duas freiras e fiz um pedido! Dizem que se a gente passa por duas freiras, tem que fazer um pedido. É por isso que elas andam juntinhas, pra não deixar ninguém passar entre elas. É uma crença popular.
Minha vó que me contou...
Uma bolinha de semáforo e mais uma história para guardar de recordação.

domingo, 20 de setembro de 2009

A medida da loucura






















Documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre a vida, a trajetória e a genialidade de Arnaldo Baptista, líder dos Mutantes.

Trailer do filme: http://www.youtube.com/watch?v=izGLQUGZZMs&feature=related

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Um apaixonado

Fazia tempo que não encontrava uma pessoa tão apaixonada!
Christian Petermann, crítico de cinema, participou hoje de um bate-bapo no Festival Universitário de Cinema, pequena mostra que integra a programação do Curta Santos. Conhecedor incontestável, ele consegue romper o círculo elistista que parece restringir o acesso ao chamado "cinema de arte" a um pequeno número de iniciados. Saber tudo sobre cinema, ele sabe. A diferença é que ele fala tudo com paixão. E paixão assim é coisa que inspira.
Confessou que, aos 11 anos já sabia que queria escrever sobre cinema e, por isso, foi estudar jornalismo. Cineasta frustrado? Nada disso! A paixão que o levava a devorar listas de fichas técnicas, sinopses e críticas - lendo inclusive sinopses de filme pornô - foi a que o guiou na mesma direção: tornar-se o tradutor de uma arte. Em qualquer que seja o veículo - jornal impresso, televisão, internet -, seu texto aproxima leitor e cinema, disseminando, assim, seu interesse e seu amor pela sétima arte.
A breve conversa particular, furtada ao final do bate-papo coletivo, cristalizou ainda mais a impressão gerada pelo encontro. O entusiamo, o brilho nos olhos, eram de um menino de 11 anos.
Sim, estava diante de um apaixonado.

sábado, 12 de setembro de 2009

O mar é uma tarrafa

*
"The sea teaches the humility. You realize you're small. You get forced do accept that you are a momentary event in this vast experience."
(Tim Winton)


Tarrafa Literária, encontro sobre literatura, novidade em Santos. Promete. De peixinho, que vire tubarão, leão marinho, baleia jubarte. No último dia da Tarrafa, teve Xico Sá, Matthew Shirts e Vladir Lemos falando sobre futebol; Amyr Klink, Tim Winton e Arthur Dapieve falando sobre mar. Mar, futebol e literatura – junte tudo isso e estou em casa. Faltava um texto sobre isso. Mas consegui algo melhor: presente da Adriana, que, depois de muito tempo e para meu contentamento, voltou a escrever. Aqui está, pelo blog que ela ainda não tem, mas já, já, vai criar...

Meu blog: OBRIGADA POR ESSES MOMENTOS
O meu obrigada de hoje vai para o Amyr Klink.
Carinho de pinguim para você.

O mar é uma tarrafa

Ele nos engole, sempre. E por que não? Participar dessa noite foi verdadeiramente um mergulho. No eu, no meu, no seu, no eles. Poucos, mas tantos. Não são super, mas simples. E essa é a beleza. Mil histórias pra contar, tantos lugares para navegar, mas pode-se fazer uma parada. Sim, um porto a mais. Algumas palavras que nos tomam como ondas, e ficamos ali à deriva. Balançando, como em suspenso, no ar, na água, no nada... Absorvendo um pouco do tudo. Em êxtase. Em síntese. Sintaxe. Construindo novos pensamentos, descobrindo absurdos. Elefantes marinhos. Quem são eles? Seres falantes... Quase inexistentes em seus abismos abissais. Até então. Porque depois dessa noite, serão mais que Teobaldos. Guilherme, homens de preto, Eduardo, abaixa mais o banner... Pessoas que estão ali. Que te acompanham mesmo em silêncio. Mas que ao mesmo tempo dizem tanto. Identifico-me tanto com esse tema. O mar sempre me fascinou, desde pequena. A força que mete medo, mas a beleza que deleita. Essa noite teve um cheiro específico: maresia. Peculiar, não poderia deixar de ser, em uma tarrafa literária. Mas pra nós, teve também um sabor. Individual. E misturado. Pra mim, café, brigadeiro com morango. Pra Rose, açúcar com canela. Na verdade “pra que os olhos se podemos sentir?”.

Pós Tarrafa Literária em Santos. Teatro Guarani
07/09/09
Eu, Rose, Mi e Sil

Adriana Vicente Antolin

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Bem-aventurança

Onde é o fim do mundo
Meu mundo só tem começo
Meus desejos não têm fim
(Meu mundo, Ceumar)

Bem-aventurança: estado de profundo bem-estar; felicidade completa; beatitude, segundo definição do dicionário Houaiss. Bem-aventurança. Bela palavra para descrever momentos em que se pressente e sente o divino nas pequenas grandes coisas. Enlevo. Alegria. Encontro. Instantes perfeitos em que a alma sorri. E dança.
O show da cantora Ceumar foi um desses momentos. Tudo era som. E beleza. A alma, incontida, parecia crescer, e, entre lágrimas, sorria e dizia: eis-me. A epifania compartilhada com amigos queridos que vislumbravam na revelação suas próprias buscas. O reencontro com aquele lugar que se chama Ser.
Estes momentos são, para Joseph Campbell, pequenos mapas que nos guiam no reconhecimento de nós mesmos. "Estamos vivendo, o tempo todo, experiências que podem, ocasionalmente, conduzir a isso, uma breve intuiç
ão de onde está nossa bem-aventurança. Agarre-a. Ninguém pode dizer-lhe o que será. Você precisa aprender a reconhecer sua própria profundidade." (O Poder do Mito)
Reinvento, Parque da paz, Planeta coração, Oração ao anjo, Mãe, Jabuticaba madura, Parede-meia, O seu olhar, Meu mundo, Avesso... Na voz de Ceumar, cada canção é bem-aventurança.

Aqui, Oração ao anjo (em versão diferente da do show de domingo):

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O blog da cantora: http://ceumar.active24blog.com/

(Dedico este post a duas amigas queridas: Adriana, por estar no show e dividir um momento de bem-aventurança comigo, e Nathália, por nossa conversa sobre bem-aventurança, que, por si só, foi um desses momentos.)

sábado, 27 de junho de 2009

Clássico dos clássicos

Futebol dos filósofos, Monty Python

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Como me tornei estúpido

"Sempre parecera a Antoine contabilizar a idade como os cães. Quando tinha sete anos, ele se sentia gasto como um homem de quarenta e nove anos; aos onze, tinha desilusões de um velho de setenta e sete anos. Hoje, aos vinte e cinco, na expectativa de uma vida mais tranquila, Antoine tomou a decisão de cobrir o cérebro com o manto da estupidez. Ele constatara muitas vezes que inteligência é palavra que designa baboseiras bem construídas e lindamente pronunciadas, e que é tão traiçoeira que frequentemente é mais vantajoso ser uma besta que um intelectual consagrado. A inteligência torna a pessoa infeliz, solitária, pobre, enquanto o disfarce de inteligente oferece a imortalidade efêmera do jornal e a admiração dos que acreditam no que lêem."

A citação é o primeiro parágrafo do livro Como me tornei estúpido, de Martin Page. Desiludido com o seu desajuste em relação ao mundo e sua incapacidade de viver a vida dos homens, Antoine decide tornar-se estúpido, como um meio de se integrar na sociedade que o cerca. Tentando viver a verdade "é bom pensar, mas é preciso aproveitar a vida", o herói desenvolve métodos para abolir qualquer forma de sabedoria e incorporar a banalidade e o conformismo típicos da sociedade contemporânea. O livro é um deleite de ironia (e inteligência!) do início ao fim.

terça-feira, 9 de junho de 2009

"Podemos questionar. Podemos usar o conhecimento que já adquirimos, pois, quando o conhecimento nos faz pensar, ele é cumulativo, está sempre acrescentando-se a si mesmo. Podemos, enfim, não ser tiranizados nem amedrontados pelos rótulos, podemos assumir, cada vez mais, a consciência de nós mesmos, de nosso lugar na coletividade, de nossas aspirações, identidade e interesses legítimos. Podemos mesmo chegar a ver o mundo de forma ideologicamente consciente e agir de acordo com essa consciência, pois, afinal, somos o limite de nós mesmos.
A conscientização ideológica gera paixões, sim. Mas só podemos
ser grandes se houver paixão."

(Política, João Ubaldo Ribeiro)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Para que serve o amor?

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Curta metragem de Louis Clichy, baseado na música de Edith Piaf e Theo Sarapo, "A quoi ça sert l'amour".

À quoi ça sert l'amour?
On raconte toujours
Des histoires insensées
À quoi ça sert d'aimer?
L'amour ne s'explique pas!
C'est une chose comme ça!
Qui vient on ne sait d'où
Et vous prend tout à coup.
Moi, j'ai entendu dire
Que l'amour fait souffrir,
Que l'amour fait pleurer,
À quoi ça sert d'aimer?
L'amour ça sert à quoi?
À nous donner de la joie
Avec des larmes aux yeux
C'est triste et merveilleux!
Pourtant on dit souvent
Que l'amour est décevant
Qu'il y en a un sur deux
Qui n'est jamais heureux
Même quand on l'a perdu
L'amour qu'on a connu
Vous laisse un goût de miel
L'amour c'est éternel!
Tout ça c'est très joli,
Mais quand tout est fini
Il ne vous reste rien
Qu'un immense chagrin
Tout ce qui maintenant
Te semble déchirant
Demain, sera pour toi
Un souvenir de joie!
En somme, si j'ai compris,
Sans amour dans la vie,
Sans ses joies, ses chagrins,
On a vécu pour rien?
Mais oui! Regarde-moi!
À chaque fois j'y crois!
Et j'y croirai toujours
Ça sert à ça, l'amour!
Mais toi, t'es le dernier!
Mais toi, t'es le premier!
Avant toi, y avait rien
Avec toi je suis bien!
C'est toi que je voulais!
C'est toi qu'il me fallait!
Toi qui j'aimerai toujours
Ça sert à ça, l'amour!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Do que a gente é ou não é

Não gosto de Los Hermanos. É um fato. Altamente questionável e sujeito às mudanças que agem sobre todas as coisas. Começo a sentir uma influência quase maléfica sobre mim. Graças à minha amiga Nathália, a baladinha bad trip da bandinha intelectualzinha e chatinha está querendo criar morada em meu ser. A começar com uma música: Pois é!

Pois é
Não deu
Deixa assim como está
Sereno
Pois é
De Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
avisa que é de se entregar por viver

Pois é,
Até onde o destino não previu
Sem mais, atrás
Vou até onde eu conseguir
Deixa o amanhã e a gente sorrir
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar

sábado, 9 de maio de 2009

O Custo da Coragem

O trabalho era apresentar um filme como exemplo de jornalismo investigativo, destacando todos os elementos do gênero.
O filme: O Custo da Coragem. Dirigido por Joel Schumacher e com Cate Blanchet no papel principal, conta a história da jornalista irlandesa Veronica Guerin. Ela trabalhava para o Sunday Independent e escrevia sobre o submundo do crime em Dublin, coisa que ninguém estava muito interessado em fazer. Por conta do seu trabalho, muitas coisas mudaram e ela se tornou uma heroína na Irlanda.
Eu estava fascinada com a história, mas sem sentimentalismo ou sem considerá-la como um modelo a seguir e coisa do tipo, mesmo porque acredito que eu não tenho vocação alguma para jornalismo investigativo. Mas ao final da apresentação, o professor Gerson - um dos melhores da faculdade e apaixonado pela história da Veronica - comentou, irônico: "Agora vocês vão pra casa assistir à Luciana Gimenez, e amanhã vocês vejam a Sônia Abrão. Depois vocês escolhem quem vocês querem ser". A última lição do filme.

domingo, 3 de maio de 2009

Final em branco e preto

Dia de decisão. Santos e Corinthians: final do Campeonato Paulista. Nem tricolor, nem alvi-verde. A rivalidade é em preto e branco.
Ontem, a cidade já anunciava a efervescência que o jogo de hoje promete. O motorista de um ônibus que vai para a avenida Ana Costa, palco das comemorações de conquistas em Santos, comentava o dia de trabalho difícil que teria. "Amanhã, aqui ninguém passa." O fascínio desses momentos que antecedem uma decisão. Daqui a algumas horas, a Praça da Independência será tomada por alvi-negros ensandecidos, sejam corintianos ou santistas. Alegria de uns, tristeza de outros.
De minha parte, prefiro os corintianos. Só porque eu não gosto do Santos. E talvez não goste só porque moro na Baixada Santista. Parece ter aqui uma pressão para torcer pra esse time, só porque é o "time da cidade". Verdadeiro provincianismo. Se eu quiser, torço para o Fenerbahçe, da Turquia, ora bolas!
Dizem que corintiano em São Paulo também é insuportável. Pelo menos, lá, tem mais times pra escolher. Não quer ser corintiano? Tudo bem, pode escolher o Palmeiras, o São Paulo, a Portuguesa... desde que seja bem longe da Zona Leste, claro...
Pressões à parte, com boa rivalidade, quem ganha é o futebol. E o jogo de hoje tem tudo para encantar. Alvi-negros ou não.

Mais um tantinho de prosa

E por falar em conversa, é muito bom saber que blogs também se falam. Pois este caderno pseudo-filosófico encontrou um amigo mineiro, quase primo - dada a proximidade de temas - com quem pode conversar.

"O que sabemos sobre nós mesmos é apenas o suficiente para nos manter ocupados, fazendo novas perguntas, buscando mais respostas." (Kenia Cris)

Li a frase e pensei em colocar aqui, com a devida citação. Pensando mais um pouquinho, resolvi citar o blog inteiro. A frase está no texto "Nada em excesso". E o texto está nos Diários de Filosofia.
Um deleite para as ideias e para os olhos.

sábado, 2 de maio de 2009

Um em dois

As histórias mais simples, em geral, são as mais plenas de significado.
Argumento para um filme: rapaz conhece moça em um trem a caminho de Viena. Eles decidem descer juntos e passar uma noite na cidade. Só isso. Essa é a história de Antes do Amanhecer. O recheio do filme são os diálogos. São simplesmente longas e deliciosas conversas. Mas mostra aquele tipo de ligação verdadeira que acontece apenas algumas vezes na vida.
Já era um dos meus filmes favoritos. Até que nove anos depois, vem a continuação. Em Antes do Pôr-do-sol, os mesmos personagens se reencontram em Paris. A mesma sintonia, a mesma mágica e a base de tudo continua sendo as conversas.
Agora já não consigo dizer qual é o meu preferido. O melhor é assistir aos dois, um depois do outro, e sentir como se fosse um único filme. Uma única história. Simples e perfeita.

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

"Deixemos o pessimismo para tempos melhores."

(frase lida pelo jornalista José Arbex Jr. em um muro na Colômbia)

terça-feira, 21 de abril de 2009

O encanto das palavras

O que explica a paixão pelas palavras? O que justifica sua beleza? O som, as sonoridades? O jogo de conceitos, imagens? A musicalidade? O documentário Palavra (En)cantada, da diretora Helena Solberg, mostra a relação entre texto e música. São depoimentos deliciosos sobre a magia da palavra cantada.
Destaque para o depoimento de Lirinha, vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado. Ele fala de sua história com a poesia e de sua necessidade de se impressionar com a vida.
Documentário para se guardar na estante. Entre livros.

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Os três mal-amados

João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

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(declamação de Lirinha)

domingo, 5 de abril de 2009

Pano de fundo

Uma história sobre policiais que exterminam jovens pobres da periferia de São Paulo não é das minhas leituras preferidas. Entendo a importância do assunto, mas não quero saber de detalhes sobre corpos e modos de assassinato. É o tipo de coisa que eu não posso ficar sabendo antes de dormir, senão tenho pesadelos. Fraqueza, criancice, seja o que for, eu assumo. Não consigo. O livro é Rota 66, de Caco Barcellos, para a disciplina Jornalismo Investigativo.
Sempre leio em silêncio, mas com esse livro, tive que me embriagar de música para conseguir seguir em frente. Música, muita música. Conhecidas, alegres, do tipo que eu canto junto. Só pra manter as coisas em perspectiva (ou totalmente fora de perspectiva). Hoje, resolvi experimentar algo novo e colocar um cd que eu nunca tinha ouvido: Janis Joplin, Greatest Hits. Maaaan, onde eu tava com a cabeça ficando tanto tempo sem conhecer essa mulher? Piece of my heart, Summertime, Try, Cry Baby, Get it while you can, Ball and chain... faixa após faixa, o livro é que se tornou o pano de fundo.
Aqui Ball and chain break down, na versão ao vivo de Ball and chain:

"I don't understand how come you're gone, man. I don't understand why half the world is still crying, man, when the other half the world is still crying too, man. And I can't get it together. I mean, if you gotta care for one day, man. I don't mean, if you, say maybe you wanna care for 365 days, right? You ain't got 365 days. You got it for one day, man. I'll tell you, that one day, man, better be your life, man. Because, you know, you can say all, you may cry about the other 364, but you're gonna lose that one day. That's all you got. You gotta call that love, man. That is what it is. If you gotta today, you don't wear it tomorow, because you don't need it. Because as a matter of fact, as we discovered on a train, tomorrow never happens. It's all the same fucking day."

sábado, 28 de março de 2009

Conversas roubadas

Ontem, estava vendo uma entrevista com Rubem Alves, no programa Sempre um Papo, da TV Câmara . Ouvi-lo falar de amor, vida, morte, poesia, com uma profundidade tão despojada, faz lembrar o tipo de pessoa que um dia eu quero ser. Ter aquela espécie de alegria sábia - ou sabedoria alegre - que contagia e ao mesmo tempo acalma.
Toda essa conversa com ele me fez pensar na poesia perdida. Não a poesia escrita, mas a poesia viva. Às vezes, a poesia some. Tira férias. E eu fico me questionando se foi ela quem me abandonou ou o contrário.
Pois bem, outro dia, roubei uma conversa. Melhor, ganhei de presente. Peguei o ônibus com três professoras de pré-escola que às vezes pegam o mesmo ônibus que eu para ir à faculdade. Não as conheço, mas sei que são professoras pelas conversas que costumam ter (e para quem julga que eu costumo ouvir conversas alheias, fique perto de três professoras e tente não ouvir o que elas dizem). Nesse dia, falavam de alunos, alunos e... uma atividade chamada "apreciação", ou coisa parecida. Os alunos fazem um exercício de criação e depois comentam uns os trabalhos dos outros. Mateus - acho que era o nome dele - resolveu pintar o céu de verde. E, segundo a professora, ele conseguiu um tom realmente incrível de verde. No momento da apreciação, outro aluno, ao ver a obra de Mateus, comentou: "quando olho pra esse verde, eu sinto cheiro de limão". E lá estava eu, sorrindo sozinha no ônibus.
A conversa das professoras e a conversa com o Rubem Alves não me trouxeram a poesia de volta, só me fizeram ver que ela sempre esteve aqui.
***
Lembrei da sequência de O Carteiro e o Poeta em que Mario grava para Pablo Neruda as coisas belas de sua terra. "Ondas de Cala di Sotto. Pequenas. Ondas grandes. Vento no penhasco. Vento através dos arbustos. Redes tristes do meu pai. Sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores, com o padre. Céu estrelado da ilha. Coração de Pablito". Poesia viva. Pura e simples.

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Link para assistir ao programa: http://www.sempreumpapo.com.br/audiovideo/player.php?id=149


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A arte do encontro

Sempre acreditei que escrevia aqui para manter uma espécie de conversa com algumas poucas pessoas que são extremamente importantes na minha vida. Mas conversar pessoalmente é muito melhor. Conversar em plena sintonia com alguém é um dos maiores prazeres da vida. A conversa flui e a gente nem sente, e mesmo os breves momentos de silêncio não são nada constrangedores, daqueles em que se buscam palavras à toa para preencher o vazio. Ao contrário, é aquela espécie de silêncio confortável, que nos deixa completamente à vontade. Tão simples e aconchegante como estar em casa. Conversar de alma para alma é isso mesmo, é estar em casa e ao mesmo tempo na casa do outro e, de tão à vontade, descobrir que tudo é uma casa só.
Pois outro dia estive na casa do meu amigo Vinícius. O encontro não poderia ter sido em lugar melhor. O píer do emissário era um convite aos devaneios e elucubrações mais malucos e interessantes. Filosofia, música, poesia, física qüântica, a essência da vida e do universo, os canais, os portais, a densidade de tudo e o sublime de tudo, a beleza, a sabedoria escondida e a nossa insensatez declarada, os caminhos, a aprendizagem e a nossa vocação infinita para o amor, o amor e o Amor. O tempo passava e a gente não via. Ou via mas fingia não ver porque a prosa tava tão boa... Cada instante foi a vivência plena da verdade de um outro grande Vinícius. Sim, a vida realmente é a arte do encontro.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Uma paixão a mais

Pão e circo. Distração para as massas. Quando considerados apenas do ponto de vista da lógica do entretenimento (ou seja, do mercado), os esportes são compreendidos como mero instrumento de manipulação e mais uma peça na engrenagem vertiginosa do consumo, em que atletas se tornam marcas tão vendáveis quanto as camisas que vestem e torcedores são obrigados a se atualizar a cada seis meses com novos modelos de uniforme do seu time favorito.
No entanto, dentro da mesma lógica do entretenimento - ou, talvez, por isso mesmo - é impossível negar todo o apelo exercido pelos esportes, assim como suas promessas, quase sempre cumpridas, de diversão. Jogo de futebol, seja em estádio, televisão ou campinho de terra batida, sempre atrai seus seguidores. Esportes nacionais, Olimpíadas, Copa do Mundo - eventos que movimentam quantias absurdas de dinheiro e... divertem.
Será que o esporte pode ser apenas resumido à relação mercadológica e política de domínio e alienação? Entre a massa indistinta de consumidores de esportes, existem pessoas que pensam, agem e sentem e que, por motivos não tão redutíveis ou fáceis de se explicar, têm aquilo que se costuma chamar paixão por esportes. Sou uma delas.
Ontem, percebi isso de modo mais nítido do que a minha consciência já permitia. Assistindo à semifinal do Aberto de Tênis da Austrália, disputada entre os espanhóis Rafael Nadal e Fernando Verdasco, pude perceber, quase intuitivamente, o que realmente faz o mundo girar. Excetuando-se as leis da física, claro. O jogo, considerado um dos maiores duelos dos últimos tempos, durou mais de cinco horas, mostrando, no limite do limite, as exigências técnicas e psicológicas de um esporte fascinante. Dentro da quadra, não víamos marcas, contratos ou patrocinadores. Víamos apenas dois homens lutando com o melhor e o pior de si mesmos.
O que me leva à minha recém-descoberta paixão por futebol americano. Alguns momentos furtados entre o zapping costumeiro de canais e pronto. Sedução total. Gladiadores debatendo-se em campo, materializando jogadas altamente pensadas e que, ao mesmo tempo, lembram brincadeira de criança. Um jogo em que ataque e defesa, simetricamente equivalentes, criam um dos balés mais violentos e mais belos de se assistir.
O mundo pode ser, de fato, apenas a grande selva capitalista. Mas as pessoas ainda são feitas de carne, osso e coração. E talvez esse tipo de lógica, da qual o esporte faz parte e é expressão, não seja compreensível às mentes puramente cartesianas. Visão ingênua ou romântica demais? Talvez seja apenas paixão...

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Amanhã, a final do Aberto da Autrália entre Nadal e Roger Federer (o ídolo!) e o Super Bowl (a grande final entre Arizona Cardinals e Pittsburgh Steelers, com direito a show de Bruce Springsteen no intervalo!!!) reservam ainda mais emoções.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Sobre morcergos e borboletas

Outro dia, tive uma lição valiosa sobre a "realidade", ou, como vulgarmente se costuma chamar, "a vida como ela é". A discussão, já bem batida, teve um diferencial (para usar um dos termos do meu opositor) interessante: foi a primeira vez que encontrei um defensor apaixonado do sistema capitalista. Sua paixão por toda a insanidade da "gestão corporativa", se justifica em grande medida por sua profissão. A lógica dos argumentos chega até a fascinar, pela lógica em si, como se falássemos em estratégias do jogo War. É o "mundo real", ele dizia. O mundo em que, como descreveu Maquiavel, os fins justificam os meios. E completou a discussão com uma analogia didática: no mundo, existem dois tipos de pessoas: as borboletas e os morcegos. Fora a tentativa de simplificar de tal maneira a vida, a divisão entre presa e predador sintetiza bem a visão competitiva e altamente agressiva defendida e valorizada por um sistema que não tem nada de bonito (para não dizer justo...).
Mas a grande lição da discussão foi o contato com uma perspectiva totalmente inusitada e contrária à minha, o que mostra que, para além de borboletas e morcegos, a vida pode ser bem mais interessante pela infinita pluralidade que apresenta.