quarta-feira, 22 de abril de 2009

"Deixemos o pessimismo para tempos melhores."

(frase lida pelo jornalista José Arbex Jr. em um muro na Colômbia)

terça-feira, 21 de abril de 2009

O encanto das palavras

O que explica a paixão pelas palavras? O que justifica sua beleza? O som, as sonoridades? O jogo de conceitos, imagens? A musicalidade? O documentário Palavra (En)cantada, da diretora Helena Solberg, mostra a relação entre texto e música. São depoimentos deliciosos sobre a magia da palavra cantada.
Destaque para o depoimento de Lirinha, vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado. Ele fala de sua história com a poesia e de sua necessidade de se impressionar com a vida.
Documentário para se guardar na estante. Entre livros.

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Os três mal-amados

João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

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(declamação de Lirinha)

domingo, 5 de abril de 2009

Pano de fundo

Uma história sobre policiais que exterminam jovens pobres da periferia de São Paulo não é das minhas leituras preferidas. Entendo a importância do assunto, mas não quero saber de detalhes sobre corpos e modos de assassinato. É o tipo de coisa que eu não posso ficar sabendo antes de dormir, senão tenho pesadelos. Fraqueza, criancice, seja o que for, eu assumo. Não consigo. O livro é Rota 66, de Caco Barcellos, para a disciplina Jornalismo Investigativo.
Sempre leio em silêncio, mas com esse livro, tive que me embriagar de música para conseguir seguir em frente. Música, muita música. Conhecidas, alegres, do tipo que eu canto junto. Só pra manter as coisas em perspectiva (ou totalmente fora de perspectiva). Hoje, resolvi experimentar algo novo e colocar um cd que eu nunca tinha ouvido: Janis Joplin, Greatest Hits. Maaaan, onde eu tava com a cabeça ficando tanto tempo sem conhecer essa mulher? Piece of my heart, Summertime, Try, Cry Baby, Get it while you can, Ball and chain... faixa após faixa, o livro é que se tornou o pano de fundo.
Aqui Ball and chain break down, na versão ao vivo de Ball and chain:

"I don't understand how come you're gone, man. I don't understand why half the world is still crying, man, when the other half the world is still crying too, man. And I can't get it together. I mean, if you gotta care for one day, man. I don't mean, if you, say maybe you wanna care for 365 days, right? You ain't got 365 days. You got it for one day, man. I'll tell you, that one day, man, better be your life, man. Because, you know, you can say all, you may cry about the other 364, but you're gonna lose that one day. That's all you got. You gotta call that love, man. That is what it is. If you gotta today, you don't wear it tomorow, because you don't need it. Because as a matter of fact, as we discovered on a train, tomorrow never happens. It's all the same fucking day."