quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Manoel de Barros

Agora não quero saber mais nada, só quero aperfeiçoar o que não sei. 

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras
não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
-Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, pode muito
que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas. . .
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramática.

XI
Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos
ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando 3
fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?).

Auto-retrato Falado
Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas,
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do chão,
pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me sinto
como que desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei - pelo que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam a ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de gado. Os
bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

(Livro das Ignorãças)
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2.3 Eu queria crescer pra passarinho...

13.9 A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não apanhava porque não dei motivo. Subi no pico do telhado para dar motivo. Aqui de cima a lua prateava. A mãe disse que aquilo não era motivo.

12.1 Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.

1.3 As árvores me começam.

1.4 Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.

10.4 Os patos prolongam meu olhar... Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho...

22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.

3.
Não é por me gavar
mas eu não tenho esplendor.
Sou referente pra ferrugem
mais do que referente pra fulgor.
Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
O que presta não tem confirmação,
o que não presta, tem.
Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas.
Só as coisas rasteiras me celestam.
Eu tenho cacoete pra vadio.
As violetas me imensam.

8.
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.

9. (...)
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.

10. É no ínfimo que eu vejo a exuberância.

11.
Todas as coisas inapropriadas ao abandono me religam
a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)

14.
O que não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento.

*
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
*
A inércia é meu ato principal.
*
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
*
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
*
Aonde eu não estou as palavras me acham.
*
Não gosto de palavra acostumada.
*
Não preciso do fim para chegar.

(Livro sobre o nada)
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Caso de Amor
(...) Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vais desaparecendo no fim de uma estrada... Deixe, deixe, meu amor.

O Apanhador de Desperdícios
Uso a palavra  para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso palavra para compor meus silêncios.

O Menino que Ganhou um Rio
Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia
o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam
naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria
rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me
deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma
rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava
do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversáriod o meu
irmão
Ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera ao
meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens
do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore do
meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore
deu flores lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava piraputanga.
Era verdade, mas o que nos unia demais eram
os banhos nus no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!

Bocó
Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas na beira do rio até duas horas da tarde, ali também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaua de ver aquele moço a catar caracóis na beira do rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa era bocó. Achou cerca de nove expressões que sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi o que o moço colheu em seus trinta e dois dicionários. E ele se estimou.
(Memórias inventadas)
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

À sombra das chuteiras imortais

"Pobres de nós, que não sabemos respeitar as grandes paixões!"
Nelson Rodrigues

Em um domingo incontestavelmente corintiano, com a morte de Sócrates e a vitória no Campeonato Brasileiro, a centelha do meu amor por futebol, que há algum tempo andava um pouco apagada, voltou a me inspirar alguma comoção.
O entusiasmo aumentou com "Poderoso Timão, o filme". Iludida ou alienada, o fato é que não resisti às muitas histórias sobre um time e uma paixão, como à da "invasão corinthiana", "marcha" de 70 mil torcedores paulistas para o Rio de Janeiro, para acompanhar a semifinal do Campeonato Brasileiro de 76, com vitória de 4 x 1 do Corinthians sobre o  Fluminense, nos pênaltis. Ou à da final de 77 sobre a Ponte Preta, após 22 anos sem conquistar o título.
Apesar de não fazer parte do "bando de louco", a emoção corintiana no dia de ontem fez lembrar porque o futebol é fonte de tantas paixões humanas.


*
Tomada pela renovada empolgação futebolística, finalmente iniciei a leitura de "À sombra das chuteiras imortais", seleção de crônicas de Nelson Rodrigues, que, em sua prosa poética deliciosa, mostra porque futebol - e literatura! - podem ser tão apaixonantes.
Com tantos textos sedutores, ficou difícil escolher um única crônica para colocar aqui. Seguem três.

Bocage no futebol
Quando eu tinha meus cinco, meus seis anos, morava, ao lado de minha casa, um garoto que era tido e havido como o anticristo da rua. Sua idade regulava com a minha. E justiça se lhe faça: — não havia palavrão que ele não praticasse. Eu, na minha candura pânica, vivia cercado de conselhos, por todos os lados: — “Não brinca com Fulano, que ele diz nome feio!”. E o Fulano assumia, aos meus olhos, as proporções feéricas de um Drácula, de um Nero de fita de cinema. Mas o tempo passou. E acabei descobrindo que, afinal de contas, o anjo de boca suja estava com a razão. Sim, amigos: — cada nome feio que a vida extrai de nós é um estímulo vital irresistível. Por exemplo: — os nautas camonianos. Sem uma sólida, potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama, um Colombo, um Pedro Álvares Cabral não teriam sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão.
Mas, se nas relações humanas em geral, o nome feio produz esse impacto criador e libertário, que dizer do futebol? Eis a verdade: — retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível, Como jogar ou como torcer se não podemos xingar ninguém? O craque ou o torcedor é um Bocage. Não o Bocage fidedigno, que nunca existiu. Para mim, o verdadeiro Bocage é o falso, isto é, o Bocage de anedota. Pois bem: — está para nascer um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano. O craque brasileiro não sabe ganhar partidas sem o incentivo constante dos rijos e imortais palavrões da língua. Nós, de longe, vemos os 22 homens correndo em campo, matando-se, agonizando, rilhando os dentes. Parecem dopados e realmente o estão: — o chamado nome feio é o seu excitante eficaz, o seu afrodisíaco insuperável.
Exagero? Nem tanto, nem tanto. A propósito, vou citar aqui o caso de Jaguaré. No seu tempo, os clubes não tinham Departamento Médico e um jogador podia andar com a boca em petição de miséria, desfraldando cáries gigantescas. Assim era Jaguaré: — não tinha dentes, só cáries. E seu riso sem obturações, docemente alvar, era largo, permanente e terrível. E acontece o seguinte: — a época de Jaguaré coincidiu com a infância do profissionalismo. Morria-se de fome no futebol. O sujeito que tinha para a média, para o pão com manteiga, podia se considerar um Rockefeller, de tanga, mas Rockefeller.
Até que, um dia, apareceu por aqui o emissário de um clube estrangeiro. E o homem esfregou na cara de Jaguaré propostas dignas de um rajá. A princípio, o nosso patrício opôs uma recusa inexpugnável. Não queria aceitar nem por um decreto. Acabou cedendo. Andou pela Espanha e até por Paris. Mas era outro, como homem e como craque. Como jogar sem a pornografia lusobrasileira?
Sem as expressões obscenas que dinamizam, que transfiguram, que iluminam os jogadores? Traduzi-las seria uma traição. E Jaguaré vivia sob a persistente, a dilacerada nostalgia dos nomes feios intransportáveis.
Finalmente, não pôde mais: — voltou correndo para o Brasil. Aqui, agonizou e morreu na mais horrenda miséria. Mas feliz, porque pôde soltar, no idioma próprio, seus últimos palavrões terrenos.
[Manchete Esportiva, 14/1/1956]

É chato ser brasileiro!
Dizem que o Brasil tem analfabetos demais. E, no entanto, vejam vocês: — a vitória final, na Copa da Suécia, operou o milagre. Se analfabetos existiam, sumiram-se na vertigem do triunfo. A partir do momento em que o rei Gustavo da Suécia veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo aqui sofreu uma alfabetização
súbita. Sujeitos que não sabiam se gato se escreve com “x” iam ler a vitória no jornal. Sucedeu essa coisa sublime: — analfabetos natos e hereditários devoravam vespertinos, matutinos, revistas e liam tudo com uma ativa, uma devoradora curiosidade, que ia do “lance a lance” da partida até os anúncios de missa. Amigos, nunca se leu e, digo mais, nunca se releu tanto no Brasil.
E a quem devemos tanto? Ao escrete, amigos, ao escrete que, hoje, é o meu personagem da semana, meu múltiplo personagem. Personagem meu, do Brasil e do mundo. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior equipe de futebol da Terra em todos os tempos, graças a esses jogadores, dizia eu, o Brasil descobriu-se a si mesmo. Os simples, os bobos, os tapados hão de querer sufocar a vitória nos seus limites estritamente esportivos. Ilusão! Os 5 x 2, lá fora, contra tudo e contra todos, são um maravilhoso triunfo vital de todos nós e de cada um de nós. Do presidente da República ao apanhador de papel, do ministro do Supremo ao pé-rapado, todos aqui percebemos o seguinte: — é chato ser brasileiro!
Já ninguém tem mais vergonha de sua condição nacional. E as moças na rua, as datilógrafas, as comerciárias, as colegiais, andam pelas calçadas com um charme de Joana d’Arc. O povo já não se julga mais um vira-latas. Sim, amigos: — o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na generosa totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas.
Vejam como tudo mudou. A vitória passará a influir em todas as nossas relações com o mundo. Eu pergunto: — que éramos nós? Uns humildes. O brasileiro fazia-me lembrar aquele personagem de Dickens que vivia batendo no peito: — “Eu sou humilde! Eu sou o sujeito mais humilde do mundo!”. Vivia desfraldando essa humildade e a esfregando na cara de todo mundo. E, se alguém punha em dúvida a sua humildade, eis o Fulano esbravejante e querendo partir caras. Assim era o brasileiro. Servil com a namorada, com a mulher, com os credores. Mal comparando, um são Francisco de Assis, de camisola e alpercatas.
Mas vem a deslumbrante vitória do escrete e o brasileiro já trata a namorada, a mulher, os credores de outra maneira; reage diante do mundo com um potente, um irresistível élan vital. E vou mais além: — diziam de nós que éramos a flor de três raças tristes. A partir do título mundial, começamos a achar que a nossa tristeza é uma piada fracassada. Afirmava-se também que éramos feios. Mentira! Ou, pelo menos, o triunfo embelezou-nos. Na pior das hipóteses, somos uns ex-buchos.
E a quem devemos tanto? Ao meu personagem da semana. Ninguém aqui admitia que fôssemos os “maiores” em futebol. Rilhando os dentes de humildade, o brasileiro já não se considerava o melhor nem de cuspe à distância. E o escrete vem e dá um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal na Suécia. Como se isso não bastasse, ainda se permite o luxo de vencer de goleada a última peleja. Foi uma lavagem total.
Outra característica da jornada: — o brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: — o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.
[Manchete Esportiva, 12/7/1958]

A vingança de Julinho
Amigos, Julinho começou a ser o meu personagem da semana a partir do momento em que o vaiaram. Foi até, se me permitem a expressão, trágico. Insisto: — trágico! Quem estava lá viu ou, por outra, ouviu. No instante em que o alto-falante do Maracanã anunciou Julinho em lugar de Garrincha, o estádio entupido foi uma vaia só. Menos eu. Eis a verdade: — eu não apupei, embora preferisse Garrincha. Parecia-me que o escrete sem o “seu” Mané era um mutilado. Na pior das hipóteses, eu achava que Feola devia ter posto os dois: Julinho na ponta direita e Garrincha na esquerda.Mas um técnico tem razões que a razão desconhece. Puseram só Julinho e esqueceram Garrincha.
Verificou-se, então, o amargo e ululante desagrado da multidão. Naquele momento, ninguém se lembrou, no Maracanã e fora dele, de quem é Julinho na história do futebol brasileiro. Sim, amigos: — o homem andou pela Itália e quando voltou nós o olhamos, de alto a baixo, como se fosse um gringo qualquer ou, pior do que isso, como se fosse um perna-de-pau. Não há nada mais relapso do que a memória. Atrevo-me mesmo a dizer que a memória é uma vigarista, uma emérita falsificadora de fatos e de figuras. Por exemplo: — ninguém se lembrava de que, no Mundial da Suíça, contra os húngaros, Julinho fizera um carnaval medonho. De certa feita, driblara toda a defesa contrária para finalizar com uma bomba, e que bomba! O arqueiro nem viu por onde a bola entrou. Esse gol foi uma obra-prima e devia estar numa vitrine de turismo, para a admiração pateta dos visitantes. Pois bem: — ao ser anunciada a escalação de Julinho, a nossa memória apresentou-nos a imagem não autêntica, não fidedigna do craque, mas de um quase penetra do escrete.
Ao ouvir o apupo, eu fui um pouco oracular para mim mesmo. Imaginei o seguinte vaticínio: — “Julinho vai comer a bola!”. Podia parecer uma piada e, no entanto, era uma grave profecia. Eis a verdade: — para o jogador de caráter uma vaia é um incentivo fabuloso, um afrodisíaco infalível. Imagino que Julinho há de ter entrado em campo crispado da cabeça aos sapatos ou, retifico, às chuteiras. Nunca um craque foi tão só. Era um único contra 200 mil.Mas, homem de brio indomável, Julinho aceitou a luta: — bateu-se contra a multidão que o cercava por todos os lados, disposta a crucificá-lo em outras vaias. Mas, se nós tínhamos esquecido Julinho, Julinho não estava esquecido de si mesmo. Foi Julinho em cada um dos 45 minutos, foi sempre Julinho e só Julinho. Em inúmeras ocasiões o que ele fez com o adversário foi pior que xingar a mãe. E o primeiro gol, ah, o primeiro gol! Ele o marcou contra os ingleses, sim, mas também contra os que o vaiaram. Enfiou a bola de uma maneira, por assim dizer, sádica. Jamais houve um gol tão amorosamente sofrido como este. A partir da abertura da contagem, todo mundo passou a reconhecê-lo, todo mundo admitiu para si mesmo: — “Este é o Julinho!”. E era.
Ele não parou mais. Aquela multidão se arremessara contra ele como um touro enfurecido. Pois bem: — ele agarra o touro a unha e lhe quebra os chifres. Então, aconteceu o milagre. O ex-touro brabo, já manso, tornou-se em outro bicho. Sim, amigos: — do primeiro gol em diante, a multidão transformou-se em macaca-de-auditório” de Julinho. Se ele apanhava a bola, os 200 mil espectadores arreganhavam o riso enorme e já gozavam, por antecipação, o que Julinho iria fazer. Vejam vocês as ironias da vida e do futebol: — de um momento para outro, o vaiado, o apupado, o quase cuspido, transformava-se num triunfador. E, de fato, Julinho foi grande. Nos pés de Julinho a jogada se enfeitava como um índio de Carnaval. De certa feita, comeu um, dois, três, quatro e quase entrou com bola e tudo. Imagino que, nesse momento, lord Nelson há de ter perguntado, lá do alto, para o mais próximo companheiro de eternidade: — “Quem é esse cara?”. O “cara” era Julinho, sempre Julinho.
Assim é o brasileiro de brio. Dêem-lhe uma boa vaia e ele sai por aí, fazendo milagres, aos borbotões. Amigos, cada jogada de Julinho foi exatamente isto: — um milagre de futebol.
[Manchete Esportiva, 16/5/1959]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Crime e castigo

"Lembro-me também de que eu, no meu artigo, desenvolvia a idéia de que todos... digamos, por exemplo, os legisladores e os fundadores da humanidade, começando pelos mais antigos e continuando por Licurgo, Sólon, Maomé, Napoleão etc. etc., todos, desde o primeiro até o último, tinham sido criminosos, mais não fosse senão porque, ao promulgarem leis novas, aboliam as antigas, tidas por sagradas pela sociedade e pelos antepassados, e certamente que não se teriam detido perante o sangue, sempre que isso (derramado às vezes com toda a inocência e virtude, em defesa das velhas leis) pudesse ser-lhes útil. Também é significativo que a maior parte desses benfeitores e fundadores da humanidade fossem uns sanguinários, especialmente ferozes. Em resumo: eu concluía daqui que todos os indivíduos, não só os grandes, como também aqueles que se afastassem um pouco da vulgaridade, isto é, também aqueles que são capazes de dizer qualquer coisa de novo, teriam a obrigação, pela sua própria natureza, de serem infalivelmente criminosos... em maior ou menos grau, naturalmente. De outro modo, ser-lhes-ia difícil saírem da vulgaridade, e eles não podem conformar-se a ficar nela, até pela mesma razão da sua natureza e, a meu ver, têm até a obrigação de não se conformarem. Em resumo: como o senhor vê, até aqui, isto não tem nada de particularmente novo. Isto já se imprimiu e foi lido milhares de vezes. Pelo que diz respeito à minha distinção entre homens vulgares e extraordinários, concordo em que é um tanto arbitrária; mas eu não citava números exatos. Eu só tenho fé na minha ideia essencial, que é aquela que consiste em dizer concretamente que os indivíduos se dividem, segundo a lei da natureza, em duas categorias: a inferior (dos vulgares), isto é, se me permite a expressão, a material, que unicamente é proveitosa para a procriação da espécie, e a dos indivíduos que possuem o dom ou a inteligência para dizerem no seu meio uma palavra nova. É claro que as subdivisões são infinitas, mas os traços diferenciais de ambas as categorias são bem nítidos: a primeira categoria, ou seja, a matéria, falando em termos gerais, é formada por indivíduos conservadores por natureza, disciplinados, que vivem na obediência e gostam de viver nela. A meu ver têm a obrigação de ser obedientes, por ser esse o seu destino e não ter, de maneira nenhuma, para eles, nada de humilhante. A segunda categoria é composta por aqueles que infringem as leis, os destrutores e os propensos a sê-lo, a julgar pelas suas faculdades. Os crimes destes são, naturalmente, relativos e muito diferentes; na sua maior parte exigem, segundo os mais diversos métodos, a destruição do presente em nome de qualquer coisa de melhor. Mas se necessitarem, para bem da sua ideia, de saltar ainda que seja por cima de um cadáver, por cima do sangue, atendendo unicamente à ideia e ao seu conteúdo, repare bem. É só nesse sentido que eu falo no meu artigo do seu direito ao crime. (Lembre-se, o senhor, que partimos de uma questão jurídica.) Embora, no fim de contas, não haja razão nenhuma para se ficar demasiado assustado; quase nunca a massa lhes reconhece esse direito, e até os castiga e os manda enforcar (mais ou menos); e assim, com absoluta justiça, cumpre o seu destino conservador, o que não é obstáculo para que, nas gerações seguintes, essa mesma massa erga os castigos sobre pedestais e se incline diante deles (mais ou menos). A primeira categoria é sempre a verdadeira dominadora: a segunda é... a futura dominadora. Os primeiros conservam o mundo e multiplicam-no matematicamente; os segundos movem-no e conduzem para a sua finalidade. Tanto uns como outros têm perfeito direito de existir. Em resumo: para mim, todos têm o mesmo direito, e... vive la guerre éternelle!... até a nova Jerusalém, naturalmente..."

(Crime e castigo, F. Dostoiévski)

sábado, 26 de novembro de 2011

Amor é pra quem ama

Qualquer amor já é
um pouquinho de saúde
um montão de claridade
contribuição
pra cura dos problemas da cidade

Qualquer amor que vem
desse vagabundo e bobo
coração atrapalhado
procurando o endereço
de outro coração fechado

Amor é pra quem ama
Amor matéria-prima
A chama
O sumo
A soma
O tema
Amor é pra quem vive
Amor que não prescreve
Eterno
Terno
Pleno
Insano

Luz do sol da noite escura

"qualquer amor já é
um pouquinho de saúde
um descanso na loucura"



*
A última frase é do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A canção é de Chão, novo álbum de Lenine, com participação especial, sem edição (e sem convite!), do canário Frederico VI.
Se um disco, com sua sequência de faixas, pode ser considerado uma coletânea de contos, Chão foi concebido, segundo o compositor, como um romance, para ser lido-ouvido de uma só vez.
Um ditongo e uma palavra foram a inspiração. "No início, havia apenas a palavra e meu principal significado de chão: tudo aquilo que me sustenta. Chão, quase onomatopeia do andar - que soa nasal, reverbera no corpo todo".

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O caminho

"Caminho" sempre serve de metáfora para diferentes coisas, apontando diversos sentidos. Mas, quando o caminho é, de fato, o próprio caminho, para que servem as metáforas?
"Não se escolhe uma vida. Vive-se uma." É a frase que separa pai e filho em "O caminho de Santiago". Thomas Avery (Martin Sheen), um médico oftalmologista da Califórnia, recebe a notícia inesperada da morte do filho Daniel (Emilio Estevez), nos Pirineus, ao iniciar o caminho de Santiago. Ao buscar o corpo do filho, Thomas decide, ele mesmo, realizar o caminho.
Dirigida por Estevez, esta é a história de uma bela produção, com imagens arrebatadoras e excelente trilha sonora. Mas não se deve esperar por respostas ou experiências místicas. Totalmente despretensioso - e nisto está, em grande parte, a sua beleza -, o filme não traz nenhuma grande revelação ou pedagogia religiosa. Talvez a própria vida seja maior que toda busca de sentido. Abandone as metáforas e apenas siga o caminho. Afinal, o caminho pode ser simplesmente o caminho.

domingo, 16 de outubro de 2011

A alma encantadora das ruas

"Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. É fatigante o exercício?
(...) Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco... 
(...) É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas... O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.
(...) E de tanto ver que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observações foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação..."

(A alma encantadora das ruas, João do Rio)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

(Da revista The New Yorker)

sábado, 3 de setembro de 2011

Conversa com Marcelino Freire

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
(Carlos Drummond de Andrade)


A sua vó Maroca já uma lembrança particular minha. A manga de João Cabral, o cocô do camelo do Egito.
Caos é vago demais, é vasto demais, vazio. Onde dói o caos em mim? Dor que não é psicanálise, você diz. Dor que é entrega de afirmação, encontro consigo mesmo. E o mergulho, quem dá?
Pego o caos, o medo, a vanidade e troco tudo pela fotografia do café nas paredes, o trem vermelho estrondeando lá fora, a sua fala pausada e o acento delicioso de cada sílaba: co-cô-di-ca-me-lu.
Tenho que eleger e trazer para a minha poesia aquilo que é só meu, você diz. Agora isso tudo também é meu, é minha particular lembrança. E o que é só meu só se torna dos outros na medida em que é meu demais.
Abandonar os sentidos, escrever com as palavras. Carne e osso das palavras, feitas de carne e osso. Ninguém vai ao abismo cheio de apetrecho. E escrever é mergulhar no abismo, você diz.
Quer falar sobre a brisa? Eu quero saber se essa brisa te pertence, você desafia.
Falar de amor? Só se for pra dizer onde o amor ama em mim.
Não venha me enganar com entranhas. Não fique escrevendo como quem entende a dor do mundo. Você sente a dor do mundo onde?, você esbraveja.
É teu?, você pergunta. Não é psicanálise, é mergulho na palavra que temos, você diz. Que palavra me pertence? Temos que encontrar nossa própria palavra e não falta palavra, você diz. Que palavra me pertence? Deixar o de repente de lado, afinal tudo é de repente. Inaugurar um olhar sobre as coisas e eternizar esse olhar numa palavra que me pertence. Que palavra me pertence?
Todas estas palavras são tuas. A procura das minhas só agora começou.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Bicicleta sob a partitura


Vídeo do artista japonês Manabu Shimada (indicação do Almir de Freitas)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Cada decisão é uma escolha entre o sofrimento e o milagre."
(Márcia De Luca, Yoga pela Paz 2011)

domingo, 14 de agosto de 2011

Meia-noite em Paris

Nostalgia. Aquilo que nos faz sentir que um tempo passado - ou um momento no passado - era melhor do que o presente. Idealização daquilo que se viveu combinada com a saudade do que não se viveu. Pode se tornar inspiração ou escapismo. Nas mãos de Woody Allen, nostalgia se transforma em viagem poética no tempo.
Gil Pender, um medíocre roteirista de cinema que visita Paris com os sogros e a noiva um tanto superficial, sonha em viver em Paris e terminar seu romance. Certa noite, recebe um carona de Zelda e Scott Fitzgerald e é transportado para a Paris dos anos 20, idealizada por ele como a verdadeira época de ouro. A partir de então, passa a se encontrar com os nomes que povoaram a vida artística e literária da cidade: Cole Porter, Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dalí, T.S. Eliot, Djuna Barnes, Josephine Baker, Man Ray, Luis Buñuel. Um desfile de encontros memoráveis e deliciosos, que confirmam que Paris é, realmente, uma festa.
Pender acaba se apaixonando por Adriana, símbolo da musa, amante de Picasso. Ela diz também ter sido amante de Modigliani e Braque. "Você elevou a categoria de groupie a um outro nível!" é a resposta de Pender, num dos divertidos anacronismos do filme.
A nostalgia e o amor por Adriana de um lado, a superação da "síndrome da época de ouro", do outro. Faz lembrar a frase de Randall Jarrell: "Pessoas que vivem numa era de ouro costumam reclamar que tudo é amarelo."
Apesar de medíocre (como ele mesmo se define), Pender é "despretensioso e ingênuo", e, em sua confusão entre passado e presente, a busca por se tornar um escritor melhor acaba transformando o que era conformismo e covardia em necessidade de começar a viver a partir de suas próprias verdades e sonhos.

"Todos os homens temem a morte. É um medo natural que nos consome a todos. Nós tememos a morte porque sentimos que não amamos o suficiente ou não amamos de modo algum, o que no fundo é a mesma coisa. Porém, quando você faz amor com uma grande mulher, uma que merece o maior respeito do mundo e que faz você se sentir verdadeiramente poderoso, o medo da morte desaparece completamente. Porque quando você divide seu corpo e seu coração com uma grande mulher, o mundo desaparece. Vocês dois são os únicos no universo inteiro. Você conquista o que o mais inferior dos homens jamais conquistou, você conquista o coração de uma grande mulher, a coisa mais vulnerável que ela pode oferecer a alguém. A morte não passa mais pela mente. O medo não mais encobre seu coração. Apenas a paixão pela vida e pelo amor se torna sua única realidade. Essa não é uma tarefa fácil porque exige uma imensa coragem. Mas lembre disso, no momento em que você fizer amor com uma mulher de verdadeira grandeza, você se sentirá imortal." (Uma das incríveis citações de Hemingway)


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Ler, pra quê?

Quem quiser que dê motivos para ler. Da minha parte, não dou nenhum. A leitura pode servir para muitas coisas, mas pode também não servir para coisa alguma. E é quando não tem nenhuma utilidade, quando não se justifica por outras razões além de si mesma, que a leitura atinge a meta. É o prazer de ler pelo prazer de ler em si. Ponto. E, no momento em que as pessoas descobrem este prazer, não precisam mais ser convencidas, já não necessitam de motivos.
Estas considerações surgiram porque tive que fazer uma matéria sobre uma biblioteca, incentivando o hábito da leitura. Mas não queria aquela chatice do tipo "leia porque isso ou leia porque aquilo". Só posso dizer que ler é bom porque é bom ler, se é que me entendem.
Enfim, todo esse devaneio é só para falar que, pesquisando algumas coisas, encontrei alguns materiais bem interessantes de incentivo à leitura.










"Uma conversa vagabunda traz à cena imagem, música, gestos que nos livram das banalidades que se encontram em nossos discursos... Trata-se de uma experiência liberta que nos leva a caminhos que não sabíamos que existiam." (Pierre Sansot)


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Nós, andarilhos, somos todos feitos assim. Nossa ânsia de peregrinar, de vagabundear se constitui na maior parte de amor e erotismo. A metade desse romantismo não é nada mais do que a esperança por uma aventura. A outra metade, porém, é um instinto inconsciente em transformar e aniquilar o erótico. Nós, os peregrinos, já estamos acostumados em acalentar amores impossíveis por serem impossíveis, e aquele amor que deveria pertencer a uma mulher facilmente dividimos entre a aldeia e a montanha, o lago e o precipício, as crianças pelo caminho, o mendigo na ponte, o gado no pasto, o pássaro e a borboleta. Nós separamos o amor da matéria amada, o amor em si nos satisfaz da mesma forma como não buscamos no caminhar a meta, senão só o próprio prazer do caminhar, de estar a caminho.
Jovem dama com o rosto cheio de frescor, eu não quero saber teu nome, não penso em alimentar nem acalentar meu amor por ti, pois não és a meta do meu amor, senão seu impulso. Darei esse amor de presente às flores do caminho, ao reflexo do sol no copo de vinho, à redonda e vermelha torre da igreja. És tu que fazes com que me apaixone pelo mundo.

(Caminhada, Herman Hesse)

sábado, 23 de julho de 2011

Nunca te vi, sempre te amei

Ontem revi o filme Nunca te vi, sempre te amei. É a história de uma escritora de Nova Iorque que passa a se corresponder com um livreiro de Londres. O que de início era uma simples solicitação de livros vai se transformando, ao longo dos anos, em uma forma muito especial e peculiar de relacionamento. O filme assume a forma narrativa da correspondência, com a troca contínua de cartas entre Helene Hanff e Frank Doel. Um belo exemplo do gênero epistolar no cinema.
A paixão por livros é o pano de fundo que acompanha o desenrolar da vida dos personagens. Uma história de amor? Talvez, sim. Mas um amor dos mais raros, dos mais sutis (e se o título em português não deixa dúvidas, a sutileza fica por conta do original, 84 Charing Cross Road, endereço da livraria em Londres).

"A humanidade, como um todo, é um livro. Quando um homem morre, um capítulo não é arrancado e sim traduzido para um idioma melhor. E cada capítulo deve assim ser traduzido. Deus emprega vários tradutores. Alguns trechos são traduzidos pela idade, outros pela doença, alguns pela guerra, outros pela justiça. Mas a mão de Deus reúne novamente todas as folhas soltas  e as coloca naquela biblioteca em que os livros se abrem uns para os outros."

Esta é uma passagem de John Donne, lida por Helene. A metáfora do livro como vida resume a beleza de 84 Charing Cross Road,  um filme para se guardar na estante.


sábado, 9 de julho de 2011

Conversa de banco de praça

Às vezes, a gente encontra boas histórias nas situações mais inusitadas. Hoje, tive um encontro casual e inesperado com a própria História.
Durante meu passeio de bicicleta, parei na praça do Aquário de Santos para aproveitar o sol em dia frio e a paisagem do mar. A dois bancos do meu, dois guardadores de carro mantinham uma conversa acalorada. Distraída com os olhos, eu não ouvia o que eles diziam. Depois de uns dez minutos, me preparava para ir embora, quando um deles se aproximou de mim:
- Moça, por favor, a revolução de hoje aconteceu porque os paulistas queriam se separar do Brasil, não é?
Surpreendida com a pergunta, parei e começamos a nossa própria discussão sobre a Revolução Constitucionalista de 32. Minha surpresa foi crescendo com a profundidade dos seus conhecimentos históricos e a sua empolgação. Me deixei ficar e fui puxando mais conversa. Ele conhecia as datas (a Revolução de 32, a ditadura de 30), os personagens, os conflitos políticos entre São Paulo e o Rio Grande do Sul. Falou sobre Getúlio Vargas, ditador em São Paulo, herói no Sul, onde até "tem uma estátua de bronze numa praça. Ele e o assistente dele, o Magalhães". Esse, eu não conhecia... Depois falou sobre outros conflitos separatistas (os alemães no Sul, por exemplo), da colonização da Guiana Francesa e do Suriname ("os estrangeiros, franceses, ingleses, holandeses invadiram e tomaram pra eles") e da nossa colonização. "A gente tem essa colonização errante porque quando os portugueses vieram pra cá, mandaram os degredados, os criminosos." De passagem, falou de seu avô holandês, "bem holandês mesmo, com cabelo sarará e olho azulzinho da cor do anil", igual ao seu. Voltou à História, questionando o tal do descobrimento do Brasil. "E o Pedro Álvares Cabral? Como é que ele descobriu o Brasil se quando ele chegou já tinha um monte de índio aqui? Jogou gasolina e acendeu o fósforo, isso é que foi o descobrimento!". Falou de D. Pedro I e a carta que escreveu para o pai, D. João, libertando o Brasil. Falou da revolta dos mineiros contra a monarquia, outra tentativa de libertação. "Aí, o que fizeram? Mataram o Tiradentes!". Para resumir uma longa conversa, minha aula de História foi do Descobrimento a Juscelino Kubitschek.
Pensando já que se tratava de um daqueles casos de pessoas com boa formação que vão parar nas ruas, perguntei se ele tinha estudado História. "Estudei. Estudei a primeira série, a segunda série e a terceira série, mas na quarta, tive que parar. É que eu tenho a cabeça boa, mesmo".
Não só a cabeça boa, mas o jeito de falar despretensioso e a simpatia, tornavam a narrativa da História muito mais interessante e prazerosa que enredo de filme. A boca sem dentes não intimidava o sorriso escancarado.
Perguntei seu nome. "É Carlos". Ia brincar, dizendo que era nome de imperador, mas fiquei com receio de ele começar a falar sobre a História da França e do Império de Carlos Magno (receio justificado só porque já era tarde e eu tinha que ir embora). "Qual é o nome da moça?". Rose. "Rose é uma rosa num jardim. Já fiz música com essa frase. É um cenário que rende bastante em poesia...". E começou a declamar um poema que, infelizmente, não guardei de memória (minha cabeça não é tão boa quanto a dele...). Se meu pasmo e encanto já não eram poucos, com a poesia, então! "O senhor, além de tudo, é poeta, seu Carlos?". Infelizmente, eu tinha que ir e a conversa sobre poesia teria que ficar para depois. "Fico sempre aqui nessa praça, você passa sempre aqui?", "Passo, sim. Quando eu vier, eu paro pra gente conversar, tá bom?"
Na hora da despedida, o outro guardador que antes havia se afastado, se reaproximou. "E o feriado da Revolução de hoje é só em São Paulo ou no Brasil todo?", perguntou o seu Carlos. "É um feriado paulista, só em São Paulo". "Em Santos também?". "E Santos fica onde?", respondeu o outro, com seus conhecimentos de Geografia...

domingo, 26 de junho de 2011

A arte de amar

O amor é uma arte que pode ser aprendida? Para o psicanalista Erich Fromm, sim. 
Em A arte de amar,  ele defende que o amor "não é um sentimento em que qualquer um se possa comprazer, sem levar em conta o nível de maturidade que alcançou". O amor, portanto, depende do desenvolvimento da personalidade integral do homem e de sua capacidade de amar, a partir de uma postura de humildade, coragem, fé e disciplina. "Numa cultura em que tais qualidades são raras, o alcance da capacidade de amar deve permanecer uma conquista rara. Ou... qualquer um pode perguntar a si mesmo quantas pessoas tem conhecido que verdadeiramente amam."

A concepção de que não é preciso aprender a amar está sustentada por duas premissas. A primeira é a de que o problema do amor é, não o de amar, mas o de como ser amado (e por isso os inúmeros esforços para se tornar "amável", que podem ser resumidos em se tornar atraente e ter sucesso). A segunda é a de que o problema do amor é a de um objeto, não de uma faculdade. "Pensa-se que amar é simples, mas que é difícil encontrar o objeto certo a amar — ou pelo qual ser amado."

Um dos erros relacionados à ideia de que não se aprende a amar é a confusão entre se apaixonar e permanecer apaixonado. 

"Se duas pessoas estranhas uma à outra, como todos somos, subitamente deixam ruir a parede que as separa e se sentem próximas, se sentem uma só, esse momento de unidade é uma das mais jubilosas e excitantes experiências da vida. É tudo o que há de mais admirável e miraculoso para quem tem estado fechado em si, isolado, sem amor. Esse milagre de súbita intimidade é muitas vezes facilitado quando se combina, ou se inicia, com a atração sexual e sua satisfação. Contudo, tal tipo de amor, por sua própria natureza, não é duradouro. As duas pessoas tornam-se bem conhecidas, sua intimidade perde cada vez mais o caráter miraculoso, e seu antagonismo, suas decepções, seu mútuo fastio acabam por matar tudo quanto restava da excitação inicial. Entretanto, no começo, elas de nada disso sabem; de fato, tomam a intensidade da paixão, a 'loucura' que sentem uma pela outra, como prova da intensidade de seu amor, quando isso apenas provaria o grau de sua anterior solidão."

A teoria fundamental a respeito do amor é a de que ele é a solução criada pelo homem para o problema da existência humana, ou seja, uma tentativa de superar a separação essencial. 

"Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter de morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dele, a consciência de sua solidão e separação, de sua impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma forma ou de outra com eles, com o mundo exterior."

A consciência da separação é, portanto, fonte de toda a ansiedade humana, dando origem a um problema fundamental, o de como transcender a própria vida individual e reencontrar a unidade. Para Fromm, o amor é a principal resposta. Outra resposta possível - e a mais comum - à solidão e ao anseio de união está no conformismo de rebanho.

"Só se pode compreender a força do medo de ser diferente, do medo de estar que poucos passos fora do rebanho, quando se compreendem  as profundidades da necessidade de não ser separado.  (...) Na maioria, o povo nem sequer tem consciência de sua necessidade de conformar-se. Vive sob a ilusão de seguir suas próprias idéias e inclinações, de ser individualista, de ter chegado a suas opiniões como resultado de seus próprios pensamentos — apenas acontecendo que suas idéias são as mesmas da maioria. O consenso de todos serve como prova da correção de 'suas' ideias. Havendo ainda necessidade de sentir certa individualidade, essa necessidade é satisfeita com relação a diferenças menores; o monograma na pasta ou no suéter, a placa com o nome do caixa do banco, o fato de pertencer ao Partido Democrático contra o Republicano, ou a esta associação em vez de àquela, tornam-se expressão de diferenças individuais. O 'slogan' de anúncios de que uma coisa 'é diferente' demonstra essa necessidade patética de diferença, quando na realidade quase nenhuma resta."

Todas as tentativas de conseguir a unidade são parciais. A única resposta completa está na "realização da unidade interpessoal, da fusão com outra pessoa: está no amor." Mas nem toda forma de fusão interpessoal é necessariamente amor. Para Fromm, amor é fruto de maturidade, enquanto outras formas imaturas de amor são chamadas de união simbiótica. 

"A forma passiva da união simbiótica é a da submissão, ou, se usarmos  um termo clínico, a do masoquismo. A pessoa masoquista foge ao insuportável sentimento de isolamento e separação tornando-se parte e porção de outra pessoa, que a dirige, guia, protege; que, em suma, é sua vida e seu oxigênio. O poder daquele a quem alguém se submete é expandido, trate-se de uma pessoa ou de um deus; é tudo, e o submisso nada, exceto naquilo em que é parte dele. Como parte, é parcela da grandeza, da força, da certeza. A pessoa masoquista não tem de tomar decisões, não precisa assumir quaisquer riscos; nunca está só — mas não é independente; não tem integridade; ainda não nasceu de todo. (...) Pode haver submissão masoquista ao destino, à enfermidade, à música rítmica, ao estado orgíaco produzido por drogas ou sob transe hipnótico: em todos esses exemplos a pessoa renuncia à sua integridade, torna-se o instrumento de alguém ou de algo fora dela própria; não precisa de resolver o problema de viver por meio da atividade produtiva.
A forma ativa da fusão simbiótica é a dominação, ou, para empregar o termo psicológico correspondente ao masoquismo, o sadismo. A pessoa sadista quer escapar de sua solidão e de sua sensação de encarceramento, fazendo de outra pessoa uma parte, uma parcela de si mesma. Expande-se e valoriza-se incorporando outra pessoa, que a adora.
A pessoa sadista depende tanto da pessoa submissa quanto esta daquela; uma não pode viver sem a outra. A diferença só está em que a pessoa sadista ordena, explora, fere, humilha, e a masoquista é mandada, explorada, ferida, humilhada. Tal diferença é considerável num sentido realista; num sentido emocional mais profundo, a diferença não é tão grande quanto o que ambas têm em comum: fusão sem integridade."

O amor vai além:

"Em contraste com a união simbiótica, o amor amadurecido é união sob a condição de preservar a integridade própria, a própria individualidade. O amor é uma força ativa no homem; uma força que irrompe pelas paredes que separam o homem de seus semelhantes, que o une aos outros; o amor leva-o a superar o sentimento de isolamento e de separação, permitindo-lhe, porém, ser ele mesmo, reter sua integridade. No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um e, contudo, permaneçam dois."

Aproveitando os conceitos de Spinoza de afetos ativos ("ações") e passivos ("paixões"), Fromm reafirma o caráter do amor como ação, como "prática de um poder humano, que só pode ser exercido na liberdade e nunca como resultado de uma compulsão". E, enquanto ação, o amor implica cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento.

"Respeitar uma pessoa não é possível sem conhecê-la; cuidado e responsabilidade seriam cegos se não fossem guiados pelo conhecimento. O conhecimento seria vazio se não fosse motivado pela preocupação. Há muitas camadas de conhecimento; o conhecimento que é um aspecto do amor é aquele que não fica na periferia, mas penetra até o âmago. Só é possível quando posso transcender a preocupação por mim mesmo e ver a outra pessoa em seus próprios termos."

Amar é, portanto, não apenas um exercício de conhecimento, mas a forma mais elevada de conhecimento.

"O amor é penetração ativa na outra pessoa, em que meu desejo de conhecer é distilado pela união. No ato da fusão, eu te conheço, eu me conheço, conheço a todos — e nada 'conheço'. Conheço pelo único meio por que é possível, para o homem, o conhecimento do que é vivo — pela experiência da união —, e não por qualquer conhecimento que nosso pensamento possa dar. O sadismo é motivado pelo desejo de conhecer o segredo, e contudo permaneço tão ignorante quanto antes era. Despedacei o outro ser membro a membro, e entretanto tudo o que fiz foi destruí-lo. O amor é o único meio de conhecimento que, no ato da união, responde à minha pergunta. No ato de amar, de dar-me, no ato de penetrar a outra pessoa, encontro-me, descubro-me, descubro-nos a ambos, descubro o homem."

Além do amor erótico, From analisa o amor fraterno, materno e de Deus, reforçando a relação entre a atividade do amor e a integridade do ser. 

"O amor não é, principalmente, uma relação para com uma pessoa específica; é uma atitude, uma orientação de caráter, que determina a relação de alguém para com o mundo como um todo, e não para com um 'objeto' de amor. Se uma pessoa ama apenas a uma outra pessoa e é indiferente ao resto dos seus semelhantes, seu amor não é amor, mas um afeto simbiótico, ou um egoísmo ampliado. Contudo, a maioria crê que o amor é constituído pelo objeto e não pela faculdade. De fato, acredita-se mesmo que a prova da intensidade do amor está em não amar ninguém além da pessoa 'amada'. (...) Por não se ver que o amor é uma atividade, uma força da alma, acredita-se que tudo quanto é necessário encontrar é o objeto certo — e tudo o mais irá depois por si. 
(...) Se verdadeiramente amo alguém, então amo a todos, amo o mundo, amo a vida. Se posso dizer a outrem, 'Eu te amo', devo ser capaz de dizer: 'Amo em ti a todos, através de ti amo o mundo, amo-me a mim mesmo em ti'."

A sociedade atual, ditada pelas regras e lógica do capitalismo, caracteriza-se, principalmente, pelas formas de pseudo-amor ou de desintegração do amor. O amor, assim, torna-se um artigo de luxo, substituído por relações de consumo, em que é possível "trocar seus 'fardos de personalidade' e esperar um bom negócio."

"Toda esta espécie de relações, na verdade, vem a dar na bem lubrificada relação entre pessoas que permanecem estranhas a vida inteira, que nunca chegam a uma 'relação central', mas que mutuamente se tratam com cortesia e que tentam fazer com que a outra pessoa se sinta melhor. Neste conceito de amor e casamento, a principal ênfase é colocada no encontro de um refúgio para o que, de outra forma, seria insuportável sentimento de solidão. No 'amor' encontra-se, afinal, um porto ao abrigo da solidão. Forma-se uma aliança de dois contra o mundo, e esse egoísmo a dois é enganosamente tomado por amor e intimidade."

Apesar do quadro atual desfavorável ao amor, como toda arte, ele pode ser aprendido. Disciplina, concentração, paciência e preocupação suprema com o domínio da arte são as principais premissas para se aprender a amar. Mas, quando se trata de amor, não há receitas, nem prescrições. 

"Amar é uma experiência pessoal que cada qual só pode ter por si e para si; de fato, quase não há quem não tenha tido tal experiência, de modo rudimentar pelo menos, como criança, adolescente, ou adulto. O que a discussão da prática do amor pode fazer é examinar as premissas da arte de amar, o meio de rumar para ela, por assim dizer, e a prática dessas premissas e marchas. Os passos para a meta só podem ser praticados por quem os vai dar e a discussão termina antes que se dê o passo decisivo."

Algumas condiçõçes específicas para se desenvolver a capacidade de amar são a superação do narcisismo, o desenvolvimento da humildade, da objetividade e da razão, a capacidade de crescer e seguir uma orientação produtiva em nossas relações para com o mundo e para conosco mesmos. E fé. 

"Que é fé? Será a fé, necessariamente, uma questão de crença em Deus ou em doutrinas religiosas? Estará a fé, por força, em contraste com a razão e o pensamento racional, ou divorciada deles? (...) a fé racional é uma convicção enraizada na própria experiência que se tem de pensamento ou sentimento. A fé racional não é primordialmente a crença em algo, mas a qualidade de certeza e firmeza que nossas convicções possuem. Fé é um traço de caráter que embebe toda a personalidade, em vez de uma crença específica.
(...) Ter fé requer coragem, a capacidade de correr um risco, a disposição de aceitar mesmo a dor e a decepção. Quem quer que insista na incolumidade e na segurança como condições primárias de vida não pode ter fé; quem quer que se feche num sistema de defesa, em que a distância e a possessividade sejam seus principais meios de segurança, faz de si um prisioneiro. Ser amado e amar requerem coragem, a coragem de julgar certos valores como sendo de extrema preocupação, de saltar à frente e apostar tudo nesses valores."

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Minhas tardes com Margueritte

"Um encontro pouco comum, entre o amor e a ternura, não tinha outra coisa. Tinha nome de flor e vivia entre as palavras. Adjetivos rebuscados, verbos que cresciam como a grama, alguns ficavam. Entrou suavemente desde o córtex até o meu coração.
Nas histórias de amor há mais que amor. Às vezes não há nenhum 'eu te amo', mas se amam.
Um encontro pouco comum. Eu a conheci por acaso no parque. Ela não ocupava muito espaço, era do tamanho de uma pomba com as suas penas. Envolta em palavras, em nomes, como o meu. Ela me deu um livro, e outro, e as páginas se iluminaram. Não morra agora, há tempo, espere. Não é a hora, florzinha. Me dê um pouco mais de você. Me dê um pouco mais de sua vida. Espere.
Nas histórias de amor há mais que amor. Às vezes não há nenhum 'eu te amo', mas se amam."

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Nada dizia e não pensava. Uma sequência de pensamentos, de ideias, de evidências voava em liberdade, atravessava-a como nuvens no céu, como outrora, nas suas conversações noturnas. Era justamente isto que outrora lhe trazia a felicidade e a liberdade. Um conhecimento ardente que não vinha da inteligência e que eles inculcavam um ao outro. Instintivo, direto.
(...) Que amor tinham eles conhecido, livre, raro, incomparável! Entendiam-se como outros cantam. Amaram-se, não porque não podiam agir de outro modo, não porque estivessem "abrasados pela paixão", como se diz, pintando falsamente o amor. Amavam-se porque tudo em redor deles o queria: a terra sob seus pés, o céu por cima de suas cabeças, as nuvens, as árvores.
(...) Era isso o essencial, era isso que os aproximava e os unia. Jamais, mesmo na felicidade mais generosa, mais louca, jamais tinham esquecido seu mais alto, seu mais comovente sentimento: o sentimento bem-aventurado de que ajudavam também eles a plasmar a beleza do mundo, que tinham uma relação profunda com o conjunto, com toda a beleza, com o universo inteiro.

(Doutor Jivago, Boris Pasternak)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Amor líquido

"Sem humildade e coragem não há amor."  (Zygmunt Bauman)

Na liquidez atual do mundo, em que predominam o consumismo, a velocidade e a negação de tudo que é sólido e durável, como caracterizar as relações amorosas?
Em Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman analisa a precariedade dos vínculos humanos e o modo como os relacionamentos são atualmente construídos a partir da dualidade fundamental entre o desejo de relacionar-se e as ansiedades e inseguranças inerentes a este desejo.

"'Relacionamento' é o assunto mais quente do momento, e aparentemente o único jogo que vale a pena, apesar de seus óbvios riscos. (...) hoje em dia as atenções humanas tendem a se concentrar nas satisfações que esperamos obter das relações precisamente porque, de alguma forma, estas não têm sido consideradas plena e verdadeiramente satisfatórias. E, se satisfazem, o preço disso tem sido com freqüência considerado excessivo e inaceitável."

Os relacionamentos seguem a lógica do consumo, em que prevalecem os impulsos de compra, a velocidade e, acima de tudo, a descartabilidade dos produtos:

"E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a 'experiência amorosa' à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço."

Além da racionalidade do consumo, os relacionamentos são também determinados pela cultura das redes, em que relações são substituídas por conexões, e estar conectado é, em si mesmo, mais importante do relacionar-se, de fato, com outras pessoas:

"Há sempre mais conexões para serem usadas — e assim não tem grande importância quantas delas se tenham mostrado frágeis e passíveis de ruptura. O ritmo e a velocidade do uso e do desgaste tampouco importam. Cada conexão pode ter vida curta, mas seu excesso é indestrutível. Em meio à eternidade dessa rede imperecível, você pode se sentir seguro diante da fragilidade irreparável de cada conexão singular e transitória."

A transitoriedade das relações parece ser compensada pela estimulante experimentação de diferentes e sucessivos casos amorosos:

"A súbita abundância e a evidente disponibilidade das 'experiências amorosas' podem alimentar (e de fato alimentam) a convicção de que amar (apaixonar-se, instigar o amor) é uma habilidade que se pode adquirir, e que o domínio dessa habilidade aumenta com a prática e a assiduidade do exercício. Pode-se até acreditar (e freqüentemente se acredita) que as habilidades do fazer amor tendem a crescer com o acúmulo de experiências e que o próximo amor será uma experiência ainda mais estimulante do que a que estamos vivendo atualmente, embora não tão emocionante ou excitante quanto a que virá depois.
Essa é, contudo, outra ilusão... O conhecimento que se amplia juntamente com a série de eventos amorosos é o conhecimento do 'amor' como episódios intensos, curtos e impactantes, desencadeados pela consciência a priori de sua própria fragilidade e curta duração."

Assim, esta mera "aquisição de habilidades" amorosas acaba configurando uma desaprendizagem do amor.

"(...) não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo."

Amor, portanto, não significa ausência das ansiedades e inseguranças inerentes aos relacionamentos, mas uma postura de humildade e coragem diante delas e de aceitação da liberdade e do mistério do outro:

"Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irreversível. Abrir-se ao destino significa, em última instância, admitir a liberdade no ser: aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor."

Resta saber se estamos dispostos a superar o estado líquido do mundo e construir um amor sólido...

*
Em Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, Bauman estende sua análise para além dos relacionamentos amorosos, e discute temas como solidariedade, o preceito do "amor ao próximo", a moral nas relações humanas, a relação entre problemas globais e locais, em especial, a questão do "estranho", do "estrangeiro" e das políticas xenofóbicas atualmente em voga.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A verdadeira nudez

"Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: 'Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: 'Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.'
(...) A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: 'Eu te amo, eu te amo...' Barthes advertia: 'Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada.' É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma."

(O retorno e terno, Rubem Alves)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Outubro, 27, à tarde

Tenho-a toda em mim, e o sentimento que experimento por ela absorve tudo. Tenho-a toda em mim, e sem ela tudo é para mim como se não existisse.

Dezembro, 6
Como a sua imagem me persegue! Quer vele, quer sonhe, ela enche a minha alma inteira! É quando fecho os olhos, neste ponto da minha fronte onde se concentra a vista interior, que vejo seus olhos negros. Neste ponto! Não posso exprimir-lhe isto. Cada vez que cerro os olhos, eles lá estão, abrem-se diante de mim, em mim, como um oceano, como um abismo; não sinto outra coisa senão eles no meu cérebro.
Que é o homem, esse semideus tão louvado? Não lhe faltam as forças precisamente quando lhe são mais necessárias? Quando ele toma alento na alegria, ou se abisma na dor, não se imobiliza num ou noutro sentido e retoma a banal e fria consciência de si mesmo, no momento exato em que aspira a perder-se na plenitude do infinito?

(Werther, de Goethe. Livro considerado marco inicial do romantismo, ajudou a consolidar o conceito de amor arrebatador, levado às últimas consequências. Também inspirou uma onda de suicídios entre românticos...)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Uma história do amor

A História do Amor no Ocidente, de Denis de Rougemont, é considerado um clássico. Embora, graças à polêmica que apresenta, tenha suscitado posturas contraditórias entre os mais diversos estudiosos - ou justamente por isso -, o livro permanece um ponto de referência obrigatório para quem quer compreender o amor.
A tese fundamental de Rougemont é a de que o amor, tal como o conhecemos e vivemos atualmente, nasceu no século XII, no sul da França, a partir da relação entre religiões heréticas - em especial, o catarismo - e a poesia cortês. A linguagem amorosa teria surgido, assim, da necessidade de expressar conteúdos místicos que não poderiam ser declarados. O amor constituía, portanto, uma oposição direta à ortodoxia religiosa, tanto em sua postura fundamental quanto em seus costumes. Uma vez assimilados a linguagem e a postura amorosa, o amor é profanado e perde a ligação com a mística que o originou, tornando-se apenas uma retórica, sólida, porém, o suficiente, para alimentar todo o imaginário do Ocidente até os dias atuais.
O surgimento e consolidação desta retórica, capaz de expressar o sentimento, são fundamentais para a própria eclosão do sentimento, afinal, "quantos homens se apaixonariam se nunca tivessem ouvido falar de amor?"

Na falta dessa retórica, tais sentimentos certamente existiriam, mas de uma forma acidental, não-reconhecida, a título de extravagâncias inconfessáveis, como se fossem contrabando. Mas sempre verificamos que a invenção de uma retórica fazia avivar rapidamente certas potencialidades latentes do coração.

Código da cavalaria cortês, trovadorismo, o Eterno Feminino e o culto à mulher, costumes feudais, catarismo, tradição celta, platonismo, cristianismo, maniqueísmo, sufismo... o amor nasceu de uma verdadeira revolução:

No século XII, assistimos, tanto no Languedoc como no Limusino, a uma das mais extraordinárias confluências espirituais da história. De um lado, uma grande corrente religiosa maniqueísta, originária do Irã, atravessa a Ásia Menor e os Balcãs e atinge a Itália e a França, trazendo consigo a doutrina esotérica da Sofia-Maria e do amor pela "forma de luz". De outro, uma retórica altamente sofisticada, com seus processos, seus temas e personagens constantes, suas ambiguidades, renascendo sempre nos mesmos lugares, seu simbolismo, enfim, remonta desde o Iraque dos sufistas que sofreram influências platônicas e maniqueístas até a Espanha árabe e, ultrapassando os Pirineus, encontra no sul da França uma sociedade que, aparentemente, esperava apenas esses meios de linguagem para dizer aquilo que não ousava nem podia confessar na língua dos clérigos ou na fala vulgar. A poesia cortês nasceu desse encontro.
E assim, na última confluência das "heresias" da alma e daquelas do desejo, vindas do mesmo Oriente pelas duas margens do mar civilizador, nasceu o grande modelo ocidental da linguagem do amor-paixão.

Rougemont explora toda esta complexa e intrincada rede de relações que deu origem ao amor a partir da análise do mito de Tristão e Isolda e de uma verdade fundamental:

O amor feliz não tem história. Só existem romances do amor mortal, ou seja, do amor ameaçado e condenado pela própria vida. O que o lirismo ocidental exalta não é o prazer dos sentidos nem a paz fecunda do par amoroso. É menos o amor realizado do que a paixão de amor. E paixão significa sofrimento. Eis um fato fundamental.
(...) Tristão e Isolda não se amam; eles o dizem e tudo o confirma. O que amam é o amor, é o próprio fato de amar. E agem como se tivessem compreendido que tudo o que se opõe ao amor o garante e o consagra em seus corações, para exaltá-lo ao infinito no instante do obstáculo absoluto que é a morte.
Tristão gosta de sentir amor, muito mais do que ama Isolda, a loura. E Isolda nada faz para retê-lo perto de si: basta-lhe um sonho apaixonado. Precisam um do outro para arder em paixão, mas não um do outro tal como cada um é; precisam mais da ausência que da presença do outro.
A separação dos amantes resulta assim de sua própria paixão e do amor que têm por sua paixão, mais do que o seu contentamento, mais do que seu objeto vivo.

A compreensão do mito, em todo o seu simbolismo, e de sua influência sobre o pensamento ocidental, ajuda a revelar o funcionamento da nossa própria postura diante do amor e da vida:

Paixão quer dizer sofrimento, coisa sofrida, preponderância do destino sobre a pessoa livre e responsável. Amar o amor mais do que o objeto do amor, amar a paixão por si mesma, desde o amabam amare de Santo Agostinho até o romantismo moderno, é amar e procurar o sofrimento.
Amor-paixão: desejo daquilo que nos fere e nos aniquila pelo seu triunfo. É um segredo cuja confissão o Ocidente jamais tolerou e não cessou de recalcar - de preservar!
(...) O êxito prodigioso do Romance de Tristão revela em nós, queiramos ou não, uma preferência íntima pela infelicidade. Não importa se essa infelicidade, segundo a força de nossa alma, é a "deliciosa tristeza" e o esplim da decadência, o sofrimento que transfigura ou o desafio que o espírito lança ao mundo: o que procuramos é aquilo que pode nos exaltar até o ponto de alcançarmos, sem querer, a "verdadeira vida" declamada pelos poetas. Mas essa "verdadeira vida" é a vida impossível. Esse céu de nuvens exaltadas, crepúsculo purpúreo de heroísmo, não anuncia o Dia, mas a Noite! A "verdadeira vida está ausente", diz Rimbaud. É apenas um dos nomes da Morte, o único nome pelo qual ousaríamos chamá-la - embora fingindo rejeitá-la.
Por que preferimos a narrativa de um amor impossível a outra qualquer? É que amamos a ardência e a consciência do que arde em nós.

Mística e amor-paixão estão intimamente ligados não apenas pela origem, mas por qualidades, motivos ou posturas comuns que os determinam. Uma destas características é expressa pela frase de Novalis: "Estamos a sós com tudo o que amamos":

Essa máxima traduz, aliás, entre muitos sentidos possíveis, um fato de observação puramente psicológica: a paixão não é absolutamente a vida mais rica sonhada pelos adolescentes: ela é, bem ao contrário, uma espécie de intensidade nua e desnudante, sim, verdadeiramente um amargo desnudamento, um empobrecimento da consciência destituída de toda diversidade, uma obsessão da imaginação concentrada numa única imagem - e a partir daí o mundo desaparece, "os outros" deixam de estar presentes, já não há próximo nem deveres ou laços que se mantenham, nem terra ou céu: estamos a sós com tudo o que amamos. "Perdemos o mundo, e o mundo a nós." É o êxtase, a fuga profunda para além de todas as coisas criadas.

A análise do amor-paixão leva a um dos principais temas discutidos por Rougemont: a crise do casamento burguês, explicada a partir da contradição entre duas morais - Eros, ou o amor-paixão, e Ágape, o amor cristão - e da ilusão que o conceito de paixão cria em nós:

O homem moderno, o homem da paixão, espera que o amor fatal lhe revele algo sobre ele mesmo ou sobre a vida em geral: último ranço da mística primitiva. Da poesia à anedota picante, a paixão é sempre a aventura. É o que vai transformar minha vida, enriquecê-la de novidades, de riscos estimulantes, de prazeres cada vez mais violentos e sedutores. É a porta aberta ao possível, um destino que se submete ao desejo! Nele penetrarei, ascenderei até ele e até ele serei "transportado"! A eterna ilusão, a mais ingênua e - nem é preciso dizer - a mais "natural" para muitos... Ilusão de liberdade. E ilusão de plenitude. 

Negar, então, a paixão, e sucumbir ao tédio? Superar a ilusão da paixão e decidir pelo amor que é ação, em detrimento do amor contemplativo, pode ser uma alternativa para viver uma experiência amorosa concreta e plena, baseada, sobretudo, na fidelidade, que não é negação ou sublimação forçada de desejos e instintos (já que os desejos, em última análise, nunca podem ser satisfeitos, apenas substituídos), mas a "aceitação incondicional de um ser em si, limitado e real, que escolhemos não a pretexto de enaltecê-lo, ou como 'objeto de contemplação', mas como um ser único e autônomo que vive ao nosso lado, uma imposição do amor ativo.":

O exercício da fidelidade para com uma mulher leva o homem a encarar as outras mulheres de maneira totalmente nova, desconhecida no mundo de Eros: como pessoas, não mais como reflexos ou objetos. Esse "exercício espiritual" desenvolve novas faculdades de julgamento, de controle de si mesmo e de respeito. Ao contrário do homem erótico, o homem fiel não procura mais ver numa mulher somente esse corpo interessante ou desejável, esse gesto involuntário ou aquela expressão fascinante; ele pressente, de imediato, o mistério profundo e grave de uma existência autônoma, estranha, de uma vida total, da qual, na verdade, só desejou um aspecto ilusório ou fugidio, projetado talvez por seu próprio sonho. Assim, a tentação se dissipa, desnorteada, em vez de se tornar obsessiva, e a fidelidade se garante pela lucidez que desenvolve. O poder do mito de enfraquece na mesma medida. Embora seja improvável que desapareça sem deixar marcas no coração de um homem moderno, perde ao menos sua eficácia: já não determina a pessoa. 

Moralismo ou não, casamento e fidelidade, no que representam um encontro e um diálogo, são, para Rougemont, um caminho para uma felicidade possível:

Analogamente à fé, é possível depreender que a paixão, nascida de um desejo mortal de união mística, só pode ser superada e realizada pelo encontro de um outro pela aceitação de uma existência própria, de sua pessoa para todo sempre diferente da nossa, mas que oferece uma aliança sem fim, iniciando um diálogo verdadeiro. Então a angústia, satisfeita pela resposta, e a nostalgia, satisfeita pela presença, deixam de buscar uma felicidade sensível, deixam de sofrer, aceitam a vida. E então o casamento é possível. Somos dois no contentamento. 

domingo, 22 de maio de 2011

A maior aventura

Quando um ser de cinco anos nos diz que teve a maior aventura da sua vida, sabemos que acabamos de viver algo grandioso.
Hoje foi a vez do Miguel conhecer o parque do Ipupiara. Nossa pequena odisséia começou com uma proposta singela, totalmente despretensiosa: "vamos lá ver os peixinhos?". Após alguma hesitação, iniciamos nossa jornada.
No caminho, adverti o herói sobre os perigos que nos aguardavam:
- Lá tem um monstro.
- Um monstro? De verdade ou de estátua?
- Você vai descobrir quando chegar lá. Você tá com medo?
- Não sei.
- Você é corajoso. Acho que você vai conseguir enfrentar o monstro.
- De que cor ele é?
- Cinza. Ele tem uma cara horrível e um rabo de peixe. E ele vive na água.
- Lá também tem tubarão?
A aproximação aumentava a ansiedade. Estávamos na direção da fera. Só um monumento pintado de amarelo nos afastava. Com todo o medo de que era capaz, o herói finalmente encarou o monstro. E o medo se fez coragem, e a coragem se fez alívio - mas não diminuiu a excitação da empreitada.
Depois de superado o principal obstáculo, tudo poderia ser usufruído como se deve, tudo era objeto de prazer.
Os peixes. Peixinhos, peixões. Cinza, laranja, preto, laranja e preto, um único branco, inalcançável. O "sucesso" ao finalmente conquistá-los com biscoitos de polvilho. A coragem dos pequenos, o receio dos grandes.
- Viu que quando a gente se aproxima, os grandes saem correndo? Mas os pequenos não têm medo nenhum. É como você e eu. Sou maior que você, mas você é muito mais corajoso.
O parquinho. Escorregador, escorregadores. Gangorra - a baixa, a alta. O balanço e a aprendizagem de voar sozinho. A criança grande acompanhando a pequena em tudo, sob o olhar curioso de alguns pais.
- Será que vão brigar comigo porque eu sou grande?
- Não.
- Será que eu vou caber?
- Abaixa assim.
Os pés cheios de areia, a alma cheia.
A praça do leão. Hora de lavar os pés e conhecer os leões que dão água pela boca.
- O leão é de verdade?
- É.
Pés e almas lavados, a sede saciada da forma mais divertida.
- Essa água é super poderosa e vai te dar super poderes. Vai te dar a força e a coragem do leão.
O momento da anunciação, sorriso escancarado no rosto, misto de alegria e orgulho: "Nossa, vivi a maior aventura da minha vida". O orgulho e a alegria redobrados em mim, sorriso na alma.
Mais uma vez o parque, mais uma vez os peixes.
- Agora a gente não pode mais brincar no parquinho porque senão vai sujar tudo de novo e a gente vai ter que lavar tudo de novo.
- Verdade. Você quer ir ver os pescadores?
- Quero.
A atração das varas de pescar, a distância dos lançamentos, os gritos de admiração, os pedaços de peixe como isca, a simpatia dos pescadores, os peixes pescados - vários mortos, vivo um, morrendo aos poucos.
A determinação de completar a jornada.
- Vamos voltar?
- Não. A gente tem que ir até o final.
- Até a ponte?
- Até a ponte.
Missão completa, hora do retorno.
Durante o caminho de volta, o desafio agora era dele:
- Agora vamos brincar de super-herói?
Ele só não sabia que já era herói desde o início...
E esta é a maior aventura da minha vida: participar, como testemunha e coadjuvante, da evolução - que, na verdade, é manifestação, auto-revelação - de um ser, em toda a sua grandeza e seu mistério.

sábado, 21 de maio de 2011

Amizade também é amor

(Presente do Igor e para o Igor)



Oração
(A banda mais bonita da cidade)

Meu amor
Essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa

Cabe o meu amor
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe em nós dois

Cabe até o meu amor
Essa é a última oração pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa

Cabe o meu amor
Cabe em três vidas inteiras
Cabe em uma penteadeira
Cabe essa oração

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Amor e filosofia

E por falar em filosofia, o livro O amor segundo os filósofos, de Maurizio Shoepflin,  apresenta uma introdução à teoria e concepção amorosa dos principais pensadores ocidentais, desde Platão até Lévinas.

"Poderíamos pensar que o tema do amor talvez não seja um assunto essencialmente filosófico, e sim mais relacionado com a especulação teológica ou com a criação artística. Na realidade, porém, podemos afirmar que, ao longo de muitos séculos da história do pensamento, não houve nenhum filósofo que não tenha manifestado interesse por este assunto; aliás, algumas páginas dedicadas ao amor alcançam os níveis mais altos da literatura filosófica de cada época, demonstrando assim a íntima adequação deste tema de reflexão à própria índole do processo do pensar filosófico.
Por isso, pensadores de todas as épocas, defensores das concepções mais diversas do mundo e da vida perceberam o fascínio do amor, debatendo com grande dedicação suas ideias a respeito, tanto assim que as suas teorias acabaram construindo um grande mosaico extremamente sugestivo."

O mosaico do livro de Shoepflin é formado pelo pensamento de Platão, Plotino, Agostinho, Boaventura, Tomás de Aquino, Ficino, Spinoza, Rousseau, Schleiermacher, Schopenhauer, Rosmini, Feuerbach, Kierkegaard, Scheler, Buber, Maritain, Stein, Sartre e Lévinas.
A estrutura do livro é dividida em duas partes. Na primeira, o autor introduz os principais conceitos da teoria de cada filósofo, e, na segunda, trechos de suas obras.
Alguns pensadores tratam do amor romântico (ou do "amor natural"), seja louvando-o - como o próprio Platão e Rousseau - ou criticando-o como uma ilusão ou uma impossibilidade - caso de Schopenhauer e Sartre. Outros discutem uma teoria amorosa segundo a doutrina cristã: é o amor caridade - o amor a Deus, o amor de Deus e o amor ao próximo. Assim, é possível conhecer diferentes concepções do amor, a partir de diferentes pontos de vista.
O amor segundo os filósofos é um breve texto de referência que cumpre o seu papel, que é o despertar o interesse pelo pensamento filosófico sobre o amor e de suscitar a vontade de se dirigir diretamente à obra original dos pensadores.

*

Para finalizar, deixo uma passagem de Martin Buber, para quem o amor é essencialmente diálogo entre um eu e um tu:

Aqueles que permanecem fiéis ao eros dialógico de asas poderosas reconhecem o ser amado. Eles experimentam a vida que é própria dele na sua simples presença: não como um objeto visto e tocado, mas através das suas nervaturas e dos seus movimentos, a partir do seu "interior" até o seu "exterior".
(...) O reino do eros de asas cortadas é um mundo de espelhos e de reflexos. Mas onde reina aquele que tem as asas intactas, não existe reflexo: nesta situação, eu, o amante, compreendo este outro ser humano, o amado, na sua alteridade, na sua independência e realidade, e o entendo com toda a força de orientação do meu espírito. O entendo, por certo, como alguém que existe enquanto se dirige a mim, mas justamente naquela realidade que não se refere a mim, mas que no entanto está ao meu redor, na qual eu existo enquanto me dirijo a ele. Não me represento como alma aquilo que vive na minha frente, mas o prometo a mim, assim como asseguro me prometer a ele. O eros dialógico possui a simplicidade da plenitude, ao passo que o monológico tem muitas variedades. Durante muitos anos percorri a terra do homem e não acabei ainda de estudar as variedades do "erótico" (como por vezes se faz chamar o súdito daquele que tem as asas quebradas). Lá perambula alguém apaixonado, mas está apaixonado somente pela própria paixão. Lá o indivíduo carrega os seus diferentes sentimentos como enfeites. Lá cada qual goza a aventura do seu fascínio. Lá alguém pode fazer coleção de excitações.
Lá ele pode por em jogo a "potência". Lá há quem se exalta por uma estranha vitalidade. Lá se encontra quem se diverte a ser ele próprio e, ao mesmo tempo, um ídolo com o qual não tem qualquer semelhança. Lá alguém se aquece no incêndio do próprio sucesso. Lá cada indivíduo pode fazer suas próprias experiências. E assim por diante, todos os diversos tipos humanos que, mesmo prolongando entre si o diálogo mais íntimo, no fim acabam representando um monólogo diante do espelho!
(...) Todos esses indivíduos não agarram outra coisa senão o ar. Somente quem compreende o outro como um ser humano, dirigindo-se a ele enquanto tal, através dele acolhe o mundo. Somente o ser cuja alteridade é acolhida pelo meu ser e vive diante de mim na dimensão da sua existência pode trazer-me o brilho da eternidade. Somente quando duas pessoas, com toda a sua realidade pessoal, podem dizer uma à outra: "É você!", podem encontrar morada entre elas.

domingo, 15 de maio de 2011

O amor platônico

Banquete e Fedro são os dois diálogos de Platão que têm o amor como tema.
A influência da teoria platônica sobre o pensamento ocidental foi tão grande que até hoje usamos a expressão "amor platônico" para nos referir a um tipo de forte paixão idealizada, não realizada, inspirada mais nos afetos da alma que nos desígnios do corpo. Isso porque, como não poderia deixar de ser, Platão aplicou sua teoria das ideias ao seu conceito de amor.
No Banquete, estando alguns nomes eminentes de Atenas reunidos em um jantar na casa de Agáton, surge a proposta de cada um realizar um discurso em louvor a Eros, o deus do Amor. Sócrates é o último a falar, mas, mesmo criticando os discursos que o precederam como falsos, o conteúdo de alguns deles ainda permeia nosso imaginário sobre o amor. É o caso da lenda, contada por Aristófanes, do andrógino original, cortado ao meio em punição pelos deuses, buscando, assim, por toda a vida, reencontrar a sua metade:

É daí que se origina o amor que as criaturas sentem umas pelas outras; e esse amor tende a recompor a antiga natureza, procurando de dois fazer um só, e assim restaurar a antiga perfeição.
(...) quando encontram a sua metade correspondente, são transportados por uma onda de amor, de ternura e de simpatia; para tudo dizer numa palavra, não desejam estar separadas nem um instante sequer. E são essas as pessoas que vivem juntas toda a vida, sem conseguirem aliás explicar o que mutuamente esperam uma da outra; pois não parece ser o prazer dos sentidos a causa de tanto encanto em viver juntas. É evidente que a alma de cada uma deseja outra coisa que não conseguem dizer o que seja, que pressentem e às vezes exprimem de maneira misteriosa.
(...) E a razão disso é que assim era nossa antiga natureza, pelo fato de havermos formado anteriormente um todo único. E o amor é o desejo e a ânsia dessa completude, dessa unidade.

Após os discursos de Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes e Agáton, chega a vez Sócrates, que introduz o artifício do diálogo e a personagem Diotima, para discorrer livremente sobre o assunto, atribuindo-lhe seu conteúdo. Seguindo o método socrático do diálogo, em que se procura desconstruir as opiniões errôneas do interlocutor por meio de perguntas, alcançando, assim, a verdade, Diotima conduz Sócrates ao conceito de amor como desejo do bem e do belo, assim como desejo de imortalidade e de procriar no belo:

Os que, porém, desejam procriar pelo espírito - pois há pessoas que mais desejam com a alma do que com o corpo (e ela é mais fecunda ainda que o corpo) -, esses anseiam por criar aquilo que à alma compete criar. Que criação será esta? É do pensamento e das demais virtudes.
(...) É bem provável, caro Sócrates, que tenhas acesso a este grau de iniciação na doutrina do amor; não sei, todavia, se poderás chegar ao grau superior, o da revelação que é o fim a que irão ter todos os que praticam a boa via.

E esta revelação é a do amor, no caminho de ascese espiritual, como instrumento para se chegar a contemplar a Beleza Absoluta:

Quando, das belezas inferiores nos elevamos através de uma bem entendida pedagogia amorosa, até a beleza suprema e perfeita, que começamos então a vislumbrar, chegamos quase ao fim, pois na estrada reta do amor, quer a sigamos sozinhos quer nela sejamos guiados por outrem, cumpre sempre subir usando desses belos objetos visíveis como de degraus de uma escada: de um para dois, de dois para todos os belos corpos, dos belos corpos para as belas ocupações, destas aos belos conhecimentos - até que, de ciência em ciência, se eleve por fim o espírito à ciência das ciências que nada mais é do que o conhecimento da Beleza Absoluta. Assim, finalmente, se atinge o conhecimento da Beleza em si!
(...) Que deveremos pensar de um homem ao qual tivesse sido dado contemplar a beleza pura, simples, sem mistura, a beleza não revestida de carne, de cores, e de várias outras coisas mortais e sem valor - mas a Beleza Divina? Achas que não teria valor a vida daquele que elevasse o seu olhar para ela e a contemplasse, e com ela vivesse em comunicação? Não te parece que, vendo assim adequadamente o belo, esse homem seria o único a poder criar, não sombras de virtude, mas a verdadeira virtude, uma vez que se encontra em contato com a verdade? Ora, para aquele que em si cria e alimenta a verdadeira virtude é que vão os favores e o amor dos deuses - e, se é dado ao homem tornar-se imortal, ninguém mais do que esse o consegue!
*

No Fedro, o amor é apenas uma justificativa para Sócrates criticar a arte retórica, tal como era praticada pelos oradores e sofistas de então, para quem o "parecer verdadeiro" era mais importante do que a verdade de um discurso.
O mote do diálogo entre Fedro e Sócrates é o discurso de Lísias, em que este defende que se deve antes conceder favores ao não apaixonado que ao apaixonado. É importante lembrar que, nessa época, era costume o amor entre homens. A partir deste discurso, Sócrates realiza outros dois, um retórico e vazio, à maneira de Lísias, e outro inspirado na verdade, para, em seguida, analisar a construção retórica e definir o que seria, de fato, o bem escrever.
Apesar de ser tema secundário, o amor não deixa de ser discutido seriamente, a partir do estudo da natureza da alma. Sócrates usa a imagem do carro alado para descrever a alma, sendo esta guiada por um cocheiro e dois cavalos em eterna disputa, um bom e virtuoso, o outro, mau e arrastado por seus desejos. Assim, o amor é inspirado por delírio divino e constitui a força que direciona a alma no caminho de ascese da contemplação das Ideias Puras.

Se conseguem que o amado compartilhe com eles do mesmo interesse, do mesmo amor, a sua vitória é, ao mesmo tempo, uma iniciação.
(...) Se a melhor parte da alma é, pois, a vitoriosa e os conduz a uma vida bem ordenada e filosófica, eles passam o resto da existência felizes e em concórdia, governando-se honestamente, escravizando a parte da alma que é viciosa e libertando a outra que é virtuosa. (...) Mas se se dedicam a uma vida em comum sem filosofia, e contudo honesta, pode suceder que os dois corcéis rebeldes os dominem num momento de embriaguez ou de desordem, os corcéis indomáveis dos dois amantes, apoderando-se de suas almas pela surpresa, os conduzirão ao mesmo fim. Eles escolherão o gênero de vida mais invejado aos olhos do vulgo e se precipitarão nos gozos. Satisfeitos, gozarão ainda os mesmos prazeres mas isso será raro, porque esses mesmos prazeres não serão aprovados pela totalidade da alma. Terão uma afeição que os ligará mas que será sempre menos forte do que aquela que liga os que verdadeiramente se amam.
Quando cessa o delírio, ainda pensam que os ligam os mais preciosos compromissos. Crêem que seria sacrílego cortar essa união e abrir seus corações ao ódio. Ao findarem os seus dias, impacientes para tomarem novas asas, as almas abandonam os seus corpos, terminando assim, com recompensa, o seu delírio amoroso. A lei divina não permite, aliás, àqueles que junto iniciaram a sua viagem celeste, que se precipitem nas trevas subterrâneas. Esses passam uma vida feliz e cheia de venturas numa eterna união e, ao receberem asas, recebem-nas juntos, em virtude do amor que os uniu na terra.
São estas coisas divinas, rapaz, que te dará o amor do que ama com paixão. O amor daquele que não tem paixão, daquele que apenas possui a sabedoria mortal e que se preocupa com os bens do mundo, só gera na alma do amado a prudência do escravo à qual o vulgo dá o nome de virtude mas que o fará vagar, privado de razão, na terra e sob a terra por nove mil anos.