quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

(Trabalho lindo da Mariana Caldas, no poeme-se)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Mary Poppins e eu

Mary Poppins foi meu Papai Noel. Em nenhuma época da minha infância, lembro de ter realmente acreditado que Papai Noel existisse, ou de ter me importado de verdade com ele. Mas na Mary Poppins eu acreditava. Para mim, ela de fato existia e morava em algum lugar mágico. Ou em Londres mesmo. Viajar de guarda-chuva era um de seus atributos especiais, mas não por isso impossíveis. Se havia trenós com renas e bruxas em vassouras, por que não uma babá de guarda-chuva? Não era apenas perfeitamente plausível, mas até mesmo natural. O fantástico se naturalizava porque o encantamento era mais forte que o real. E eu ansiava por aquela espécie de magia, capaz de transformar as pessoas em seres melhores e mais felizes. A verdadeira mágica estava aí, e por isso eu realmente acreditava nela.
"Uma colher de açúcar ajuda o remédio a descer" era a principal lição nessa aprendizagem da alegria. A infância recuperada como o tempo e o espaço da diversão, da descoberta. Bastava um pouquinho de açúcar, e quem, por mais miserável que fosse, não teria um pouquinho de açúcar para dar?

Por muito tempo, esperei por Mary Poppins. Sonhava em entrar num desenho no chão de uma praça, brincar com bichinhos animados que cantavam e dançavam, apostar corrida em cavalo de carrossel. Praticava diligentemente, como um mantra ou uma oração, a pronúncia da palavra mais poderosa de todas: "supercalifragilisticexpialidocious" (que, então, eu dizia "supercalifragiliexpialicious"). Também queria visitar o Tio Albert, cuja "doença" era não conseguir parar de rir. E suspirava apaixonadamente pelo Bert (nossa relação era desde cedo ambígua, porque ao mesmo tempo em que o imaginava como um tio, queria me casar com ele).

Depois de esperar por Mary Poppins, passei a querer ser ela. Assim como algumas pessoas querem ser anjos. Era minha referência mais real de ascese espiritual e de busca possível por uma bondade fundamental (bondade no sentido em que dizemos que alguém é "bom", mas principalmente  na concepção de "bondoso" - o bem aliado à benevolência e ao contentamento, simples mas difícil de se alcançar). Ainda é.
Rever Mary Poppins foi uma viagem emocional à minha infância e àquela parte de mim que ainda acredita que uma colher de açúcar ajuda a descer qualquer remédio.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

silêncio

silêncio
palavra que cala

e anuncia
um mundo de nada

e tudo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O Pasquim

Pasquim: jornal crítico ou calunioso, geralmente impresso de forma simples; jornal de má qualidade, jornaleco; escrito satírico afixado em local público. Estas são as definições do Dicionário Aulete. Mas se você juntar Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Sérgio Augusto, Fortuna, Luiz Carlos Maciel, Ivan Lessa, Henfil, Tarso de Castro, Paulo Francis, entre outros (incluindo aqui os colaboradores eventuais, como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Rubem Braga, Glauber Rocha, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Fonseca, Caetano Veloso...), vai saber o que realmente significa O Pasquim. Um grupo de jornalistas, escritores, cartunistas e humoristas se reúne no final dos anos 60, em pleno regime militar, para fazer um jornal de oposição. A principal arma: o humor.
O primeiro volume de O Pasquim - Antologia (ao todo, foram publicado três volumes, organizados por Sérgio Augusto e Jaguar) traz o que de melhor foi produzido durante os dois primeiros anos do jornal (e é tanta coisa boa que fica difícil escolher o que citar para dar ideia da insanidade criativa da famosa patota). Na introdução, Sérgio Augusto explica o que foi O Pasquim:

"Foi o maior fenômeno editorial da imprensa brasileira. E não adianta discutir. O Cruzeiro? Tinha atrás de si uma poderosa empresa jornalística, os Diários Associados de Assis Chateubriand. Veja? Ora, veja. Com a editora Abril bancando a aventura, modéstia à parte, até eu. Atrás de O Pasquim, só havia um punhado de porras-loucas.
Assumidamente nanico, moleque, paroquial e abusado, nasceu sob a suspeita de que duraria pouco tempo; menos até que os oito números da Pif-Paf, criada em 1964 por Millôr Fernandes e inviabilizada pela censura dos milicos que naquele ano haviam assumido o poder. Mas durou, afinal, 1072 números - o equivalente a 22 anos de vida.
As suspeitas iniciais tinham razão de ser. Onde já se viu um jornal sem patrão, onde todos os colaboradores podiam escrever o que bem entendessem e como bem entendessem? Pois a velha utopia de dez em cada dez jornalistas revelou-se, mais do que factível, um sucesso - fulminante e retumbante. A tal ponto que o cético Millôr, que no primeiro número previra menos de três meses de vida para o solerte hebdomadário, admitiu, já no quarto número, que se equivocara.
(...) Foi, sem dúvida, um risco; quase uma bravata. Entre setembro de 1968, quando a ideia do jornal não era mais que um brilho nos olhos de Jaguar e Tarso de Castro, e 26 de junho de 1969, quando o primeiro número chegou às bancas, os generais haviam 'legalizado' a ditadura com o AI-5 e a censura apertara as cravelhas nas redações menos dóceis ao novo regime. O Pasquim não pagou barato pela audácia de já nascer 'do contra' (sobretudo contra as babaquices da classe média) e 'livre como um táxi', 'equilibrado como um pingente', 'incômodo como um folião num velório'. E ainda que nos primeiros tempos fosse mais folgazão, gozador, festivo (a expressão 'esquerda festiva' foi inventada por um dos seus colaboradores, Carlos Leonam) e atento a questões de comportamento, aos poucos deixou-se contaminar pelo inevitável: a indignação política. Sem, contudo, abrir mão do velho preceito de Horácio (reciclado poe Jean de Santeuil): o riso é a melhor arma contra todas as imposturas."


Segue um documentário realizado pela TV Câmara sobre a história do jornal:


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Billy Eckstine por Ivan Lessa

 "Gente é mito. Mito é você, meu bem, 10 minutos depois que eu fui embora. Mito sou eu, no meu táxi, enquanto você dá a corda no despertador. Mito é sempre ontem, mito é sempre longe. Parte do mito que deixamos com os outros e que os outros deixam com a gente está na voz. Alguém na janela dizendo que é hora de almoço, a voz do amigo repetindo que é tarde demais, o pai falando 'durma... durma, meu filho...' e as pessoas nos quadros. E as pessoas nos livros. E nos jornais. E nos cinemas. E na televisão. E nos discos. Todas, todas querendo dizer alguma coisa. Que é assim mesmo. Ou que não deveria ser assim. É sim e é não e é talvez. Isto o que fica. Este o jeito pequeno, muito pequeno, com que damos e recebemos coisas. A vida vai indo e o coro é cada vez maior. Há que apurar os ouvidos e catar as vozes que nos interessam. Para melhor ou para pior, estamos a elas afinados.
Quando a telefonista do The White House Hotel, em Albany Street, Regent's Park, me deu o quarto 340 e alguém do outro lado da linha atendeu, expliquei que estava tentando localizar o sr. Eckstine. A voz me disse:
- Speaking.
23 anos depois de, na Calle Corrientes, em Buenos Aires, numa cabina de casa de discos eu ter escutado pela primeira vez (Just An Old Love Of Mine) a voz de Billy Eckstine, o mito de minha vitrola parou de cantar e começou a falar:
- Speaking.
E esperou para ouvir o que eu tinha a dizer. Não era muito. Expliquei que, na verdade, tentava localizá-lo há 23 anos. Riu. Vim com a conversa de que era um Brazilian journalist coisa e tal.

(...) Em 1949, Sinatra sussurrava que 'os tolos seguem caminhos temidos pelos anjos' (Fools Rush In). Eckstine, passando por cima do clichê, afirmava que a viagem era tudo, a paisagem o ponto principal. Sua voz era aqui e agora. Seu conceito de canção, um enorme 'sim'.

(...) Eckstine está com 50 e muitos. A voz adquiriu uma textura ainda mais profunda de couro marrom-escuro. Nela pode-se distinguir um trombone de vara, a seção de metais da orquestra de Duke Ellington, um piano de Nova Orleans, cabarés infames de Chicago, o polimento de Detroit, a poluição de Pittsburgh, a glória que foi o Carnegie Hall. E se você prestar muita atenção: tanto bate-papo entre disc-jockeys e representantes das fábricas de discos, agentes com charuto na boca discutindo preços, músicos ganhando 25 dólares para ficar a noite inteira acompanhando um boboca de violão em punho e, felizmente, Jelly, Jelly."

(Ivan Lessa, "Entrevista Billy Eckstine" - uma das melhores que já li! - O Pasquim, Antologia)


domingo, 25 de novembro de 2012

Felicidade é um cobertor quente

"Eu preciso do meu cobertor! Eu admito! Olhe para vocês. Quem entre vocês não sente insegurança? Quem entre vocês não depende de alguém ou de alguma coisa para ajudar a passar o dia? Quem entre vocês pode atirar a primeira pedra?" (Linus, Peanuts, Charles Schulz)



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Um banquinho, um violão (uma guitarra, um ukelele)

Documentário e show ou show permeado de imagens de Eddie Vedder fora do palco, viajando, escrevendo música, surfando ou cortando coco em sua casa no Havaí. Conversa e risos no palco. Versões acústicas para músicas do Pearl Jam, canções da carreira solo - algumas da trilha sonora de Na natureza selvagem (preciosidade o Vedder falando sobre o Chris McCandless entre Guaranteed e Setting Forth) -, a voz da EJ Barnes em Golden State ("We are luck, we are fate, we are the feeling you get in the golden state..."), belas interpretações de músicas de Bob Dylan (Girl from the North Country, Forever Young). Tudo isso e um pouco mais é Water on the Road: Eddie Vedder Live.


Sometimes

Large fingers pushing paint
You're God and you got big hands
The colours blend
The challenges you give man

Seek my part
Devote myself
My small self
Like a book amongst the many on a shelf

Sometimes I know
Sometimes I rise
Sometimes I fall
Sometimes I don't
Sometimes I cringe
Sometimes I live
Sometimes I walk
Sometimes I kneel
Sometimes I speak of nothing at all
Sometimes I reach to myself
dear God

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Poeme-se

(Poema de Vânia Jordão)


(Essa versão em pontos de ônibus de Vitória, com arte de Maiara Dias, faz parte do projeto de arquitetura e urbanismo Pontos de Arte, desenvolvido na Universidade Federal do Espírito Santo)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

On the road, o filme (ou o livro?)

Literatura e cinema. Será que uma grande obra literária sobrevive à sua adaptação cinematográfica? Estava até com medo de assistir a On the road, só para não ter que pensar nestas questões, aliás, bem batidas. Livro é livro, filme é filme, e é inútil tentar comparar duas linguagens tão específicas e distintas entre si. Mas no caso de Jack Kerouac, não resisti à tentação da comparação.
Além de perder a forte sensação de "vida vivida" provocada pelo texto, meu maior receio antes de ver o filme era o de encontrar alguns de meus personagens literários favoritos mortos e esquartejados. Bom, Sal Paradise e Dean Moriarty até estão bem representados em sua versão cinematográfica, mas não são o Sal Paradise e o Dean Moriarty a quem contemplei, muito mais que libertários de tabus sociais, como verdadeiros espíritos livres, de uma liberdade de outra espécie, uma dimensão outra do que é ser livre.
Além da diferença - natural, por sinal - de representações mentais, quem ama o livro também corre o risco de esperar em vão pelas citações de algumas de suas passagens favoritas na narração em off. A delícia das palavras se perde...

A propósito da relação entre literatura e cinema, Gabriel García Márquez disse algo genial, em uma entrevista a Glauber Rocha:
"Um texto literário, de qualidade, é infilmável. Nada mais anticinematográfico que uma novela. Um filme baseado em roteiro não passa de uma ilustração, que pode ser bem feita, mas perderá sempre uma certa dimensão. Um poema é muito mais perto de um filme. Se eu fosse cineasta filmaria como se escrevesse um poema, inventando imagens."

Cinema e literatura. Talvez também seja válido o questionamento na direção oposta do fluxo entre as duas artes. Será que o filme, por si só, é capaz de criar o entusiasmo pela obra de Kerouac e levar os espectadores que não a conhecem a procurar e explorar seus livros? No caso de On the road, tenho minhas dúvidas...

Discussões batidas à parte, fica a dica. Do filme. E principalmente do livro.

"Amarguras, recriminações, conselhos, moralidade, tristeza - tudo lhe pesava nas costas, enquanto à sua frente se descortinava a alegria esfarrapada e extasiante de simplesmente ser."



sábado, 3 de novembro de 2012

A mulher segundo Vinicius

"Não há nada mais belo do que curtir o espetáculo de uma mulher vivendo o seu amor. Ela fica, ao mesmo tempo, intensa e transparente. Seu olhar adquire uma luz macia e parece interiorizar-se, como se estivesse sempre a prescrutar o próprio íntimo, e a beleza do que visse não pudesse ser revelada. Todos os seus gestos traduzem a posse de um segredo indizível, que é preciso guardar a qualquer preço, pois que todos o querem descobrir. E ao mesmo tempo que sua beleza física explode, ela fecha-se, no claustro de seu amor, que quer só para ela porque, de repente, tudo fica frágil, imensamente frágil."

(Vinicius de Moraes, "A mulher segundo Vinicius I", em O Pasquim - Antologia)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Poesia em comercial?

"(...) poesia é um sopro, um susto que a gente leva e logo passa, deixando dentro de nós uma beleza inteira." (Sonia Junqueira, em Poesia na varanda)

 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Felicidade Interna Bruta



Para saber um pouco sobre o Butão: http://viagem.uol.com.br/guia/cidade/butao.jhtm

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

"Acho que a única coisa que faço muito bem é ser eu..."

(Paula Gomes, em http://quandoestiverassim.blogspot.com.br/)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Perfeição em forma de som

Ivan Vilela tocando Asa Branca

Asa branca by Ivan Vilela on Grooveshark

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Walden

"Talvez exista o livro que nos explique nossos milagres e nos revele outros". Henry David Thoureau escreveu isso, provavelmente sem esperar que Walden, uma de suas obras mais importantes, se tornasse esse tipo de livro para inúmeras pessoas. Sou uma delas. A narrativa do livre pensador que decide ir morar no bosque, à beira do lago, construindo sua própria morada e vivendo essencialmente da natureza, inspira uma outra espécie de existência - mais elevada, porém, possível.
"As coisas atualmente inexpressáveis, talvez as encontremos expressas em algum lugar." O que há de mais sagrado e fundamental em minhas crenças e aspirações está ali, e, se algum dia, alguém quisesse me conhecer realmente e compreender meus motivos interiores e minha busca por sentido, encontraria em Walden  muito mais sobre mim do que qualquer ideia superficial ou pretensiosamente profunda que eu possa dar de mim mesma.

"A grande maioria dos homens leva uma vida de calado desespero. O que se chama resignação é desespero confirmado. Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado, e tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados. Um desespero estereotipado, mas inconsciente, se esconde mesmo sob os chamados jogos e prazeres da humanidade. Não há diversão neles, pois esta vem depois da obrigação. Mas uma característica da sabedoria é não fazer coisas desesperadas."

"(...) a riqueza de um homem é proporcional ao número de coisas das quais pode prescindir."

"Eu tinha três peças de calcário em minha escrivaninha, mas fiquei apavorado quando descobri que precisaria tirar o pó todo dia, enquanto a mobília de meu espírito ainda estava toda empoeirada, e de desgosto joguei fora as pedras pela janela. Então como poderia eu ter uma casa mobiliada? Prefiro sentar ao ar livre, pois o mato não junta pó, a não ser onde o homem pode fender o solo."

"Jamais homem algum decaiu em minha estima por usar uma roupa remendada; no entanto, tenho certeza de que os homens geralmente se preocupam mais em ter roupas elegantes, ou pelo menos asseadas e sem remendos, do que em ter uma consciência limpa.
(...) Uma questão interessante é até que ponto os homens conservariam sua posição social se tirassem suas roupas."

"Quando somos sábios e não temos pressa, percebemos que somente as coisas grandes e valiosas têm alguma existência absoluta e permanente - que os pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombras da realidade."

"Os homens consideram a verdade muito remota, na periferia do sistema solar, atrás da estrela mais distante, antes de Adão e depois do último homem. Há, de fato, algo de verdadeiro e sublime na eternidade. Mas todos esses tempos, lugares e ocasiões existem aqui e agora. Deus culmina no momento presente, e não será mais divino no decorrer de todos os tempos. E só somos capazes de apreender o que é sublime e nobre com a perpétua instilação e absorção da realidade que nos cerca."

"Sempre lamentei não ser tão sábio  quanto no dia em que nasci."

"Qual o tipo de espaço que separa um homem de seus semelhantes e o faz solitário? Descobri que nem o maior esforço das pernas consegue aproximar dois espíritos."

"Só quando nos perdemos, em outras palavras, só quando perdemos o mundo é que começamos a nos encontrar, entendemos onde estamos e compreendemos a infinta extensão de nossas relações."

"Quando um homem dá ouvidos às sugestões levíssimas, mas constantes, de seu gênio interior, que certamente são verdadeiras, ele não sabe a que extremos, ou mesmo a que loucura, pode ser levado; e no entanto é aí, à medida que se torna mais firme e fiel, que se encontra seu caminho."

"Uma voz lhe disse: Por que você fica aqui e vive esta vida mesquinha e cansativa, quando lhe é possível uma existência gloriosa? Estas mesmas estrelas cintilam em outros campos. - Mas como sair desta condição e realmente migrar para lá? A única ideia que lhe ocorreu foi praticar alguma nova austeridade, deixar a mente lhe entrar no corpo e redimi-lo, e tratar a si mesmo com respeito sempre maior."

"Um homem mais sensato é capaz de se encontrar com bastante frequência 'em oposição formal' ao que é tido como 'as leis mais sagradas da sociedade', por obedecer a leis ainda mais sagradas, e assim pode testar sua resolução sem sair de seu caminho. Próprio de homem não é adotar tal atitude em relação à sociedade, e sim manter a atitude em que se encontra em sua obediência às leis de seu ser, que nunca será de oposição a um governo justo, se vier a encontrar algum."

"Aprendi com minha experiência pelo menos isto: se o homem segue confiante rumo a seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns. Deixará algumas coisas para trás, cruzará uma fronteira invisível; novas leis universais e mais liberais começarão a se estabelecer por si sós ao redor e dentro dele; ou as velhas leis se ampliarão e serão interpretadas em seu favor num sentido mais liberal, e ele viverá com a licença de uma ordem superior de seres. À medida que ele simplifica sua vida, as leis do universo se mostrarão menos complexas, e a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem a fraqueza fraqueza. Se você tiver construído castelos no ar, não será trabalho perdido; é ali mesmo que eles devem estar. Agora ponha-lhes os alicerces."

"Por que havemos de ter uma pressa tão desesperada em conseguir sucesso, e em empreendimentos tão desesperados? Se um homem não mantém o passo com seus companheiros, talvez seja porque ouve um outro toque de tambor. Ele que acompanhe a música que ouve, por mais marcada ou distante que seja. Não importa que amadureça ao tempo de uma macieira ou de um carvalho. Converterá sua primavera em verão? Se a condição das coisas para as quais fomos feitos ainda não existe, qual é a realidade que podemos colocar em seu lugar? Não naufragaremos contra uma realidade vã. Iremos nos esforçar em erguer um céu de vidro azul sobre nós mesmos, mesmo sabendo que, depois de pronto, ainda estaremos fitando o verdadeiro céu etéreo lá no alto, como se o primeiro não existisse?"



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

quero aprender a ver em silêncio.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

"Há quem, acompanhado pomposamente até a sua casa por um povo entusiasmado, de volta de alguma cerimônia pública, só encontre, ao despir a toga, mesquinharias e tormentos. E cai de tanto mais alto quanto mais bela a festa. E mesmo que os atos humildes da vida privada se ordenassem admiravelmente, fora preciso um juízo penetrante e particularmente lúcido para constatá-lo, pois a ordem é uma virtude sem brilho e que não atrai atenção. Tomar de assalto uma trincheira, desempenhar uma missão, governar um povo, são ações de realce; admoestar, rir, vender, comprar, amar, odiar, conversar com os seus e consigo mesmo, docemente, razoavelmente, sem relaxar nem se contradizer, são coisas mais raras, mais difíceis e menos notáveis. Os que vivem afastados da sociedade têm deveres tão complexos e árduos quanto os outros; e os simples cidadãos, diz Aristóteles, praticam a virtude em condições mais difíceis e elevadas do que os que desempenham funções públicas. É mais pelo desejo de glória do que por convicção e consciência que buscamos as situações de relevo. O meio mais eficiente de conquistar a glória deveria ser o de realizar o que por ela realizamos tão-somente por injunção da consciência. A própria coragem de Alexandre parece-me, no teatro em que se praticava, bastante inferior à que desenvolveu Sócrates no meio elevado e obscuro em que viveu. Imagino facilmente Sócrates no lugar de Alexandre, mas não vejo este no lugar daquele. Perguntai a Alexandre o que sabe fazer. Dirá: subjugar o mundo. Indagai o mesmo de Sócrates e responderá: viver a vida humana de acordo com as condições estabelecidas pela natureza. Ciência bem mais alta, mais pesada e mais digna.
O mérito da alma não consiste em se elevar mais alto e sim em se conduzir ordenadamente. Sua grandeza não se manifesta na grandeza, mas na mediocridade."

("Do arrependimento", Ensaios, Montaigne)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Being Flynn

- É uma oportunidade para mim.
- Que oportunidade? A oportunidade de morrer congelado?
- A oportunidade de ver como vive a outra metade. Os pobres, os oprimidos. Eu faço a mesma coisa que você aqui, junto material.
- Não, eu não junto material. Esta é a minha vida.
- A vida é juntar material.



(Filme baseado no livro Another bullshit night in suck city, autobiografia do escritor Nick Flynn)

domingo, 26 de agosto de 2012

Brincando com as palavras

Já tinha colocado uma citação da Adriana Falcão aqui, mas depois de encontrá-la na Tarrafa Literária, deu vontade de mais Adriana Falcão.
"Gosto muito da palavra. Gosto muito de escrever o que quer que seja", foi uma das coisas que ela disse na conversa com o José Roberto Torero e o Roberto Muylaert. Depois de participar da contação de histórias na Tarrafinha (nessas horas, sobrinho é só desculpa para as crianças mais velhas se divertirem também...), do bate-papo sobre a arte de escrever crônicas e de ler alguns de seus livros, esse amor da Adriana pelas palavras e o gosto das palavras da Adriana ficam no fundo raso da alma, brigadeiro depois de comido, cheiro de café coado pela casa.
"Eu tenho essa brincadeira de pensar como criança", ela também disse. Pensa como criança, escreve brincando com o pensamento da gente.

"É tanto céu nesse mundo que mesmo que a gente juntasse todas as tampas, de todos os tipos, ainda ia sobrar muito céu para tampar." (A tampa do céu)

"Filósofo é quem, em vez de ver televisão, prefere ficar pensando pensamentos."
"(irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do seu peito)"
"Solidão é uma ilha com saudade de barco."
"Muito é quando os dedos da mão não são suficientes."
"Angústia é um nó muito apertado bem no meio do seu sossego."
"Antes é uma lagarta que ainda não virou borboleta."
"Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa."
"Certeza é quando a ideia cansa de procurar e para."
"Vaidade é um espelho em todos os lugares ao mesmo tempo."
"Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja."
"Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento."
"Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes."
"Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma."
(Mania de explicação)

Sem antes nem depois
O menino achava errado o antes e o depois não se encontrarem nunca.
E reclamava.
- Quando ainda é antes, o depois não chegou. Quando chega o depois, o antes já ficou pra trás.
Ele queria porque queria arranjar um encontro entre os dois.
E ficava pensando num jeito de tirar o agora do meio pra deixar o antes e o depois cara a cara.
O menino apostava que eles iam ficar amigos.
Já pensou? O antes e o depois bem unidos, tão unidos que não se largassem mais? Aí, tudo ia ser um só momento, sem antes nem depois, só agoras.
Enquanto o antes e o depois brincassem, o tempo inteiro ia ser brincadeira.
E, durante a brincadeira, os dias iam passar.
A vida ia passar brincando. Ninguém mais ia precisar tomar banho antes, arrumar o quarto depois.
Enquanto procurava um jeito de juntar o antes e o depois, o menino ficava pensando nas coisas que os dois poderiam fazer juntos.
Podiam brincar de esconder.
O antes se escondia, o depois ia procurar. Enquanto o depois não encontrasse o antes, só ia existir o daqui pra frente na vida das pessoas. Não importava o que elas tinham feito, aonde tinham ido, o que tinha acontecido. Todo mundo ia ficar sem lembranças, até o antes aparecer. E quando o antes aparecesse, trazendo de volta o passado das pessoas, era o depois que ia se esconder, deixando todo mundo sem planos, sem irei, sem farei, sem serei, sem amanhã.
O antes e o depois podiam apostar corrida.
E se o depois chegasse na frente ia fazer uma bagunça na vida das pessoas. Tudo ia ser ao contrário, se o depois chegasse primeiro que o antes. Primeiro a gente dizia alô, depois o telefone tocava. Primeiro botava a cabeça pra fora, depois é que abria a janela. Primeiro a gente ria, depois é que contavam a piada. Primeiro ganhava o jogo, depois é que fazia o gol. Primeiro a gente dizia, depois a gente pensava. Primeiro a gente chegava, depois e que a gente ia. Primeiro a gente se via, depois se olhava no espelho. Primeiro fazia a prova, e só depois estudava. Primeiro a gente comia, depois é que ficava com fome. Primeiro tinha a indigestão e depois exagerava. Primeiro a gente caía, depois é que tropeçava.
E se a gente não quisesse que acontecesse o que já sabia que ia acontecer, era só fazer outra coisa. Cada um ia ser dono do seu destino, cada um ia escrever a sua história. Não iriam mais existir consequências, resultados, surpresas, acasos.
Como achou isso bastante sem graça, o menino achou bem mais divertido deixar tudo como era antes.
(Uma das Sete histórias para contar)

Palavra
As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas e para brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. Nada é mais fúnebre do que a palavra fúnebre. Nada é mais amarelo do que o amarelo-palavra. Nada é mais concreto do que as letras c, o, n, c, r, e, t, o, dispostas nessa ordem e ditas dessa forma, assim, concreto, e já se disse tudo, pois as palavras agem, sentem e falam por elas próprias. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro corre. A palavra palavra diz. O que quer. E nunca desdiz depois. As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto. As palavras são sinceras, as segundas intenções são das pessoas. A palavra juro não mente. A palavra mando não rouba. A palavra cor não destoa. A palavra sou não vira casaca. A palavra liberdade não se prende. A palavra amor não se acaba. A palavra ideia não muda. Palavras nunca mudam de ideia. Palavras sempre sabem o que querem. Quero não será desisto. Sim nunca jamais será não. Árvore não será madeira. Lagarta não será borboleta. Felicidade não será traição. Tesão nunca será amizade. Sexta-feira não vira sábado nem depois da meia-noite. Noite nunca vai ser manhã. Um não serão dois em tempo algum. Dois não será solidão. Dor não será constantemente. Semente nunca será flor.
(Trecho da crônica do livro Pequeno dicionário de palavras ao vento, lida pela Adriana na Tarrafa)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Sem explicação

Emoção é um tango que ainda não foi feito.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Desejo é uma boca com sede.
Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.

(Mania de explicação, Adriana Falcão)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Trilha sonora

Se vida tivesse trilha sonora... O fato é que tem. Embora a cena cotidiana da nossa existência não passe em slow motion, muitas vezes uma canção acompanha toda a ação (ou ausência dela).
A música varia, mas está lá.

Ultimamente, não uma, mas uma coleção de canções tem sido o acompanhamento musical dos meus devaneios e perambulações: Ukelele Songs, do Eddie Vedder.
Lançado em 2011, o álbum reúne músicas tocadas no ukelele, instrumento havaiano de quatro cordas. E a verdade é que outros instrumentos acabam não fazendo falta. A sonoridade simples e suave ressalta a beleza de letras e melodias, que tocam a alma e os sentidos de leve, como um carinho bom. As letras ácidas e pungentes do Pearl Jam dão lugar a canções de amor.
Ukelele Songs é o segundo trabalho solo de Vedder, após Into the Wild, trilha sonora para o filme "Na natureza selvagem" (falei um pouco sobre essa trilha aqui).  O álbum conta com a participação de Glen Hansard (The Frames e Swell Season) na faixa "Sleepless nights", e Cat Power em "Tonight you belong to me". Outras faixas incluem versões para "Can't keep" (Pearl Jam) e "Dream a little dream", além de composições inéditas de Vedder.

Algumas preciosidades:

Oh I believe in love and disaster. Sometimes the two are just the same. ("Sleeping by myself")

Cloud of tears it's a lot of weight to bear
And the sun, it may be shining
There's an ocean in my eyes
'Cause I know that this is goodbye
("Goodbye")

Don't have eyes for the world outside
They're closed and turned within
Trying to find the light inside
It's lit but growing dim
("Broken heart")

I've seen the light
I'm satisfied that the brightest star is you
Satellite, holding tight beaming back to you
("Satellite")

And when the time is right, I hope that you'll respond
Like when the wind gets tired
The ocean becomes calm
I may be dreaming but I'm longing to belong to you
("Longing to belong")

I bleed but I won't break.
("Light today")

E a favorita:

Without you
I'll grow when you grow
Let me loosen up the blindfold
I'll fly when you cry
Lift us out of this landslide
Wherever you go, whenever we part

I'll keep on healing all the scars
That we've collected from the start
I'd rather this than live without you
For every wish upon a star
That goes unanswered in the dark
There's a dream I've dream't about you

And from afar I lie awake
Close my eyes to find
I wouldn't be the same

I'll shine when you shine
Painted pictures on my mind
Sunsets on this ocean
Never once on my devotion
However you are or far that you fall

I'll keep on healing all the scars
That we've collected from the start
I'd rather this than live without you
For every wish upon a star
That goes unanswered in the dark
There's a dream I've dream't about you

And from afar I lie awake
Close my eyes to find
I wouldn't be the same
Without you
Without you

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Hunter S. Thompson, o mestre do Gonzo

Política, drogas e... jornalismo? A combinação parece explosiva. E é. Mas nada que cheire a convencionalismo ou limitação pode ser relacionado ao trabalho de Hunter S. Thompson, criador e mestre absoluto do chamado Jornalismo Gonzo.

"(...) e essa qualidade é a essência  do que, por nenhum motivo especial, decidi chamar de Jornalismo Gonzo. É um estilo de 'reportagem' baseada na ideia de William Faulkner de que a melhor ficção é muito mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo - e os melhores jornalistas sempre souberam disso.
Isso não significa que a Ficção seja necessariamente 'mais verdadeira' que o Jornalismo - ou vice-versa - mas que tanto 'ficção' quanto 'jornalismo' são categorias artificiais. As duas formas, em seus melhores momentos, são apenas dois meios diferentes para alcançar o mesmo fim. Isso está ficando meio pesado demais, então é melhor eu parar e explicar, a essa altura, que Medo e Delírio em Las Vegas é uma experiência fracassada de Jornalismo Gonzo. Minha ideia era compor um bloco de anotações bem grosso e registrar a coisa toda enquanto ela acontecia, e em seguida mandar as anotações para publicação - sem edição. Desse jeito, imaginei, o olho e a mente do jornalista funcionariam como uma câmera. O texto seria seletivo e necessariamente interpretativo - mas, uma vez que a imagem fosse registrada, as palavras seriam definitivas. Da mesma forma que uma fotografia de Cartier Bresson é sempre (de acordo com ele) um negativo de quadro inteiro. Nenhuma alteração no quarto escuro, nada de cortes ou aparadas, nada de procurar erros... nada de edição.
Mas isso é uma coisa difícil de fazer. No final das contas, acabei impondo uma estrutura essencialmente ficcional ao que começou como uma peça jornalística convencional/maluca. A verdadeira reportagem Gonzo requer os talentos de um mestre do jornalismo, o olho de um artista/fotógrafo e os colhões de um ator. Porque o escritor precisa participar da cena enquanto escreve sobre ela - ou pelo menos gravá-la ou mesmo desenhá-la. Ou as três coisas. Provavelmente a analogia mais próxima do ideal seria um diretor/produtor de cinema que escreve seus próprios roteiros, faz seu próprio trabalho de câmara e de algum modo consegue filmar a si mesmo em ação, como protagonista ou pelo menos um dos personagens principais." (Texto de Capa para Medo e Delírio em Las Vegas: uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano)

A Grande Caçada aos Tubarões - Histórias estranhas de um tempo estranho reúne reportagens escritas por Thompson entre 1962 e 1978. Os bastidores e a decadência do Kentucky Derby, a cobertura das campanhas presidenciais de McGovern e Nixon, o caso Watergate, a viagem pela América do Sul (com direito a um episódio de tiroteio em Copacabana), um retrato dos hippies de San Francisco, a cidadezinha no meio do nada onde Hemingway escolheu passar os últimos anos de sua vida, a insanidade hilariante em um campeonato de pesca de tubarões em Cozumel, a entrevista com Muhammad Ali, a procura pelo sonho americano na degenerada Las Vegas. Essas e outras histórias alucinantes - e literalmente alucinadas, movidas a uma grande variedade de substâncias alucinógenas - dão forma, no entanto, a uma visão extremamente lúcida da realidade. A loucura como a única forma sã de realmente compreender o mundo. A liberdade de expressão - que, no caso de Thompson, é de fato liberdade de expressão -  ultrapassa todos os limites, normas e padrões estabelecidos, criando uma obra viva e enebriante. Impossível não se contagiar com tanta vivacidade e voracidade em cada palavra, em cada história.

"Conheci o peão andarilho na última noite. E, como ele estava duro e eu não, paguei um quarto de hotel para que ele não precisasse dormir na grama perto da estrada para Spokane. Mas, em vez de viajar no dia seguinte, ele pegou o que restava do seu dinheiro e se sentou sozinho num banquinho no bar Thunderbird, no centro de Missoula. Estava cabisbaixo e bebia seus drinques devagar, do mesmo jeito que ele tinha feito na noite anterior, enquanto punha seu troco na jukebox, que pode se tornar uma máquina muito cara para aqueles que precisam de barulho contínuo para evitar que comece a pensar.
Eram quatro da manhã quando ele bateu na porta do meu quarto de hotel. 'Desculpa te incomodar, parceiro', ele disse. 'Ouvi sua máquina de escrever, mas fiquei sozinho, cê sabe - precisava falar com alguém.'
'Bom', respondi, realmente não muito surpreso por vê-lo ainda na cidade. 'Acho que um café cairia bem pra nós dois. Vamos até o Oxford, fica aberto a noite inteira.' Descemos as escadas do hotel silencioso e atravessamos o saguão, onde um recepcionista sonolento levantou a cabeça e olhou curioso, com aquele olhar de oficial de justiça que os recepcionistas cultivam desde o início dos tempos. Parecia se perguntar que tipo de jornalista eu seria, a ponto de precisar ter vagabundos me chamando naquela hora imprópria numa manhã fria de Montana.
O que pode ser uma pergunta válida. Mas aí outra pessoa poderia perguntar que tipo de jornalista gastaria seis semanas viajando pelo Oeste sem escrever sobre Bobby Cleary, o peão andarilho sem lar, correndo ladeira abaixo para um túmulo precoce. Ou Bob Barnes, o caminhoneiro envolvido com prospecção, meio surdo, que nunca entendeu que sua vida era um desesperado jogo de dança das cadeiras. Ou o ruivo magro e gago da Pensilvânia que disse que seu nome era Ray e que tinha ido de carona até o Oeste atrás de um lugar 'onde um homem ainda pode ganhar a vida honestamente'.
Você os encontra ao longo das estradas, nas lanchonetes que abrem a noite inteira e em velhos bares tradicionais que ainda servem cerveja a 10 centavos - uma legião de homens heterogênea, variada e sempre falante, que não se encaixa em nenhum padrão exceto que todos parecem remanescentes dos dias da Grande Depressão. Você não os encontrará em nenhum lugar onde os homens usam terno e gravata ou trabalham em empregos fixos. Eles são os peões nômades, os andarilhos, os viajantes radicais e os trabalhadores sem endereço fixo que perambulam pelas estradas compridas do Oeste com a mesma regularidade e resistência que outros homens demonstram quando viajam pelo metrô de Nova York. Seu trabalho é onde eles o encontram, sua bagagem é raramente mais do que uma pequena maleta ou uma sacola de papel e sua visão do futuro é tão pessimista quanto limitada." (Vivendo no Tempo de Alger, Greeley, Debs)

Hunter S. Thompson por ele mesmo, sobre a autobiografia do escritor, aqui.

Para mais Thompson, outras duas indicações: o documentário Gonzo: a vida e obra do Dr. Hunter S. Thompson e o filme Diário de um Jornalista Bêbado, protagonizado por Johnny Depp e baseado na obra de Thompson.


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

The Newsroom

"Não é o maior país do mundo, professor. Essa é a minha resposta.
Sharon, a NEA é um fracasso. Representa um centavo de nosso salário e age quando bem entende. Custa votos. Custa tempo no ar e espaço no jornal. Sabe por que ninguém gosta dos liberais? Eles perdem. Se os liberais são tão espertos por que sempre perdem? E com essa cara você dirá aos estudantes que os EUA são tão incríveis porque somos os únicos que temos liberdade? O Canadá tem liberdade. O Japão tem liberdade. Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Espanha, Austrália. A Bélgica tem liberdade! São 207 estados soberanos e 180 deles têm liberdade. E você, garota da irmandade... Caso entre por acidente numa zona eleitoral, saiba do seguinte. Não há nenhuma evidência de que somos o maior país do mundo. Estamos em 7º lugar em alfabetização, 27º em matemática, 22º em ciência, 49º em expectativa de vida, 178º em mortalidade infantil, 3º em renda familiar média, 4º em força de trabalho e exportações. Lideramos o mundo só em três categorias. Número de presos per capita, adultos que crêem em anjos e gastos com defesa. Gastamos mais do que 26 países juntos sendo que 25 deles são aliados. Agora, nada disso é culpa de um jovem universitário, mas sem dúvida você faz parte da pior geração que já existiu. Então, ao perguntar por que somos o maior país do mundo, não sei do que você está falando."

Um seriado de televisão norte-americano que tem esse texto na cena de abertura merece alguma atenção. The Newsroom, nova série produzida pela HBO que estreou no Brasil nesta semana, explora os bastidores de um telejornal, mostrando as intricadas relações que estão por trás das notícias. O roteiro é de Aaron Sorkin, premiado pela série The West Wing e ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado por A rede social.
A trama gira em torno do temperamental âncora Will McAvoy (Jeff Daniels), em crise em meio a um certo conformismo profissional. Após o "surto" em uma universidade, ou seja, a declaração polêmica que abre o seriado, o jornalista sai de férias forçadas e, ao voltar, tem que lidar com uma nova situação: seu antigo produtor e equipe abandonaram o programa que passará a ser produzido por sua ex-namorada Mackenzie MacHale (Emily Mortimer).
Juntamente com o diretor de jornalismo da emissora Charlie Skinner (Sam Waterston, conhecido pelo papel de Jack MacCoy, de Law and Order), Mackenzie encarna a postura idealista de tentar fazer o bom jornalismo voltar a ser o que deveria ser. "As pessoas gostam de notícia com integridade. Não é todo mundo, mas 5%. E 5% a mais de qualquer coisa é o que faz a diferença nesse país. Então, podemos melhorar.", declara a otimista produtora executiva, após mencionar Dom Quixote.
Mas será que ainda existe espaço para idealismo no jornalismo? Se a realidade ainda nos leva a duvidar, para Mackenzie, é papel da imprensa ao menos iniciar o debate e tentar romper a mediocridade reinante.

"- O que é vencer pra você?
- É reivindicar o Quarto Poder. É reivindicar o jornalismo como uma profissão honrosa. E um telejornal noturno que promova um debate digno de uma grande nação. É civilidade, respeito e devida importância. É a morte da reclamação, das fofocas e do voyerismo. É falar a verdade aos idiotas. Não ter um ponto demográfico cômodo, mas um lugar onde todos possamos nos reunir. Estamos chegando a um ponto crítico e você sabe disso. A discussão será enorme. O governo é um instrumento do bem ou é cada um por si? Existe algo maior que queremos alcançar ou o interesse próprio é o que basta para nós? Você e eu temos a chance de propor esse debate.
- Isso é...
- Quixotesco?"

A série vai ao ar aos domingos, às 21 horas. O primeiro episódio está disponível no site da HBO Brasil.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Delicadeza

Dizer que um filme que tem como título "A delicadeza do amor" é delicado pode soar redundante demais, desnecessário. Mas se esse filme alcança sutilmente o alinhamento perfeito entre o tom e o tema, talvez a redundância na escolha das palavras se justifique.
Dirigida por David e Stéphane Foenkinos, a produção francesa narra a história de Nathalie, que, após a morte do marido François, com quem tinha uma vida perfeita, passa a se dedicar exclusivamente ao trabalho, abandonando seus sentimentos. A solidão voluntária a que se entrega é abalada por Markus, colega de trabalho com quem inicia um inesperado relacionamento.
A amizade, a empatia e intimidade crescente entre os dois vão dando forma a uma relação que, embora questionada por todos, vai se tornando cada vez mais profunda e... delicada. Se a pergunta que todos se fazem - até mesmo Nathalie - é "por que?" ou, mais especificamente "por que Markus"? (afinal o estranho sueco não é nenhum modelo de relacionamentos bem-sucedidos, muito menos um galã de cinema), a resposta vai sendo dada pelo próprio Markus, personificação da delicadeza.

A passagem final, bela em cada detalhe, me lembrou a canção Secret Garden, do Bruce Springsteen. (Pensando bem, a música é um bonito retrato da própria Nathalie...)

She'll lead you down a path
There'll be tenderness in the air
She'll let you just far enough
So you know she is really there.
She'll look at you and smile
And her eyes will say
She's got a secret garden
Where everything you want
Where eveything you need
Will always stay a million miles away.

Essa distância é vencida por Markus, que tem a chave para entrar no jardim secreto de Nathalie. "Andando aqui, eu piso em sua dor. E foi nesse local, no coração de todas as Nathalies, que decidi me esconder".

terça-feira, 31 de julho de 2012

"(...) quanto mais se tem dentro de si, menos se quer dos outros."
(A cura de Schopenhauer, Irvin D. Yalom)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sem tempo ruim

Acabo de conhecer o trabalho do fotógrafo francês Christophe Jacrot. Sua obra é marcada por uma escolha pouco usual: o gosto pela chuva, pela neve e pelo mau tempo. Para Jacrot, estes elementos são "um maravilhoso terreno fotográfico, um universo visual pouco explorado, com forte poder evocativo e rico em luzes sutis. Este universo escapa à maioria de nós, ocupados demais em encontrar abrigo."

A brincadeira com a água, a luz e as formas cria imagens que são verdadeiros quadros impressionistas. 

 Le petit chaperon rouge: 60x90 ed.12/70x105 ed.8 Last prints

Fuite: 60x90 cm ed.12 / 70x105 cm ed.8

 Pluie d'étoiles: 60x90 cm ed.12

Graines d'eau 2: 50x75 cm ed.12 ex

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Noites do Sertão

(Guimarães Rosa)

"A cada palavra dela, seu coração se saía." 

"A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio..."

"Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparo de avisar."

"Era bom, gostar dela assim, com aquela velhice de alma, com o coração preguiçoso."

"E ainda mais forte sutil do que o pedido do corpo, era aquela saudade sem peso, precisão de achar o poder de um direito bonito no avesso das coisas mais feias." 

"Soropita bebeu um gole de tranquilidade."

"Mas, Surupita, amor é coragem. E amor é sede depois de se ter bem bebido..."

"Querer-bem não tem beiradas..."

(Dão-Lalalão)

"Perto dela, a gente vai sentindo a precisão de viver apenas o momento."

"Nem sei se gosto de Maria da Glória, se um encantamento assim, mesmo crescente, quer dizer amor. Sei que desejaria parar, demorado, perto dela. Da alegria."

"O amor é que é o destino verdadeiro."

"Daí, é dia. O sol sustenta um grande sossego."

"No silêncio nunca há silêncio."

"Envelhecer devia de ser bom - a gente ganhando maior acordo consigo mesmo."

"Quando encontrei Maria da Glória, aqui, foi como se terminasse, de repente, uma grande saudade, que eu não sabia que sentia."

"Cerrou as pálpebras - a noite era uma água. De estar só, completamente, tirou uma esquisita segurança. Segurou-se ao instante. E foi como o abrir-se de outros olhos, agudo uma pontada."

"Estar por estar. Lalinha se cerrava, espessava os olhos; em volta, chumbo de tudo, o mundo se lavava, veloz, mas ali no senseio da rede era um ninho."

"O sol não é os raios dele - é o fogo da bola. A gente é o coração caladinho..."

"Um sonho era o espírito, o desenho de uma coisa possível, querendo vir a ser verdade."

"O amor exigia mulheres e homens ávidos tãomente da essência do presente, donos de uma perfeição espessa, o espírito que compreendesse o corpo."

"O verdadeiro amor é um calafrio doce, um susto sem perigos..."

"A noite é o que não coube no dia, até."

"Numa criatura humana, quase sempre há tão pouca coisa. Tanto se desperdiçam, incompletos, bulhentos, na vãidade de viver."

"Não, o que agora perdia era nada, fora apenas o molde incerto de uma coisa que podia ter sido."

"Amava-os. E entendia: um despertar - despertava? E a vida inteira parecia ser assim, apenas assim, não mais que assim: um seguido despertar, de concêntricos sonhos - de um sonho, de dentro de outro sonho, de dentro de outro sonho... Até a um fim?"

"Morrer talvez seja voltar para a poesia..."

"Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria... Depois, retoma coisas e pessoas, para ver se já somos capazes da alegria sozinha... Essa - a alegria que Ele quer..."

(Buriti)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

"Porque em todas as circunstâncias da vida real, não é a alma dentro de nós, mas sua sombra, o homem exterior que geme, se lamenta e desempenha todos os papéis neste teatro de palcos múltiplos, que é a terra inteira." (Plotino)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Mafalda


terça-feira, 12 de junho de 2012

Mais uma história de amor

Paper Heart, um filme (documentário? ficção?) para se ver com um sorriso no rosto.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Janela da alma

"Temos muitas coisas em excesso nos dias de hoje. A única coisa que não temos o suficiente é tempo, mas a maioria de nós tem tudo em excesso. E ter tudo em excesso significa que nada temos. A atual superabundância de imagens significa, basicamente, que somos incapazes de prestar atenção. Somos incapazes de nos comunicarmos com as imagens. Atualmente, as histórias têm que ser extraordinárias para nos comoverem. As histórias simples, não conseguimos mais vê-las." (Wim Wenders, no documentário Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho)

 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Histórias sobre família

Toda família tem sua história. Toda história tem seu valor. E tudo que tem valor deve ser preservado e respeitado. Respeito não significa aceitação incondicional e resignação pacífica. Respeito significa aceitar o que foi e melhorar o que não foi. Esse é o caminho do meio.

A tia Rose: ela é a mulher mais legal do mundo!!! Amo muito a mamãe, mas a tia Rose é minha companheira de bagunças favorita!!! Ela faz simples caixas de papelão se transformarem em naves espaciais e depois em parede de desenho e depois em palco pra teatro de bonequinhos feitos no dedo!!! Com ela, aprendi a levar o Frederico (o cachorrinho dela) pra passear, eu mesmo é que levo a guia nas mãos!!!  Com ela, brinco de pega-pega, de esconde-esconde, de tirar disquetes velhos da caixinha. Na hora do almoço é sempre ela que põe o alface no meu prato e finge que vai roubar minha comida só para eu comer tudinho! Eu finjo que fico bravo, que não vou deixá-la roubar nada e aceito mais uma colherada. Nossa relação é de puro fingimento – fingimos que somos atletas, astronautas, navegadores, pintores, cientistas, exploradores e até fingimos ser quem a gente é! Ela me leva a castelos, labirintos e sobe comigo em foguetes! Ah, e ela me dá um banho tão gostoso, faz massagem com creminho e me deixa tão cheiroso...

O tio Randal: ele é um homem alto, que me pega, me gira, me faz voar, às vezes até voo montado na bicicleta!!! Todo domingo ele vem aqui e traz o meu primo Miguel – que farra!!! Corremos, pulamos,  jogamos bola, fazemos guerra de bexigas, brincamos de espada, até tênis nós já jogamos!!!  Precisa ver como fico alegre!!! Só não pulo bem alto porque ainda não consigo! Às vezes ainda choro na hora de dividir os brinquedos, mas aos poucos começo a entender que brincar junto é melhor que não brincar sozinho. Precisa ver como estamos crescendo juntos! No dia das mães, tio Randal e eu fizemos uma surpresa para a mamãe: ele comprou flores cor de laranja, uma das cores favoritas da mamãe, e me deu para eu dar pra ela!!! Elas vinham numa caixa bonita e tinham um cartão com uma joaninha, onde estava escrito assim: “feliz dia das mães, do Marcéu para a mamãe”. Ela ficou tão feliz!!! Tio Randal também traz filmes e desenhos legais pra eu assistir e no meu aniversário foi ele que desenhou o painel do Kung-fu Panda e encheu as bexigas!!! E a tia Maria, que é a esposa do tio e mãe do Miguel, enchia balões e com eles fazia bichos, espadas, chapéus...  que divertido!!! Eu tive uma festa de aniversário muuuuuuuuuuuito divertida!!!

A vovó: a vovó é meu reservatório ambulante de mimos, doces e brincadeiras! Fica sempre falando pra mamãe: “posso dar uma bolachinha? Posso dar um pirulito? Põe açúcar no chá dele!” E mamãe sempre diz: “Não, não, não...”. Então às vezes ela faz algumas dessas coisas escondido da mamãe... hihihi... Vovó me ensinou o que é grande e o que é pequeno. Hoje eu olho uma árvore e digo: “grande, grande, grande...”. Vovó larga tudo que estiver fazendo pra ficar comigo! E juntos brincamos de dobrar papel, depois de rasgar papel, depois de embrulhar coisas com papel e depois de fazer bolas de papel e fazer gooool!!! Ela me deu uma mesinha e um sofá na minha medida, só pra mim!!! E ali brinco de rabiscar, desenhar, pintar, montar liglig, lego, girafas e elefantes. E até assisto desenhos no computador da minha tia! Ela só fica brava comigo quando começo a jogar todos os brinquedos  no chão e espalhar tudo pela sala. Aí, ela engrossa a voz e diz: “Não, assim não!” Ela também faz comidinhas gostosas, principalmente uma omelete, que eu adoro! Ela confia em mim e me dá leite para beber na xícara!!!  Às vezes ela me faz dormir cantando: “Alecrim, alecrim dourado, o Marcéu fecha os olhos porque está cansado”. Aha, te peguei, você achou que conhecia a música? Pois não poderia conhecer, porque essa foi feita especialmente para mim. Agora sim, você conhece!

Essas pessoas são parte das minhas origens.
Mesmo sem entender muita coisa, eu as reverencio.
Mesmo entendendo tudo, eu as respeito.
Com elas eu cresço.
E com elas aprendo que ninguém é perfeito e nem precisa ser.
Porque como diz o tio Stupa: “o importante não é ser perfeito, o importante é ser feliz”.

(Marcéu e Mamãe)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Onde Vivem os Monstros


*

Assim começa Onde Vivem os Monstros, um dos mais conhecidos livros infantis de Maurice Sendak. O autor morreu nesta terça-feira, aos 83 anos. O coração, que, segundo ele, vivia na infância, parou.
A obra tornou-se um clássico da literatura infantil mundial e ganhou uma bela versão cinematográfica nas mãos de Spike Jonze (Quero ser John Malkovich, Adaptação).


Jonze, juntamente com Lance Bangs, também assina a direção de Tell Them Anything You Want: A Portrait of Maurice Sendak, documentário que conta a vida e obra do escritor e ilustrador.



“Tenho pensamentos e experiências de adulto na minha cabeça, mas nunca falarei sobre eles. Estarei preso na infância? Bom, acho que é lá que está o meu coração.” (Maurice Sendak)

*
Vale a pena mencionar também a trilha sonora de Onde Vivem os Monstros, com músicas de Karen O. (Yeah, Yeah, Yeahs).

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pearl Jam por Cameron Crowe

Em outubro de 1993, a capa da Rolling Stone trazia uma reportagem com o Pearl Jam, assinada por Cameron Crowe.  Em 2011, o diretor lança "Pearl Jam Twenty", documentário sobre a história dos 20 anos da banda.

Cinco contra o mundo
(Cameron Crowe)

Existem dois Eddie Vedders. Um é quieto, tímido, quase inaudível quando fala. Amando e sendo amado. O outro é torturado, um realista amargo, um homem capaz de apontar injustiça e agitar a guerra dentro do próprio país, dentro dele mesmo. Em um dia de primavera, quente e com vento, em San Rafael, Califórnia, é fácil ver qual Eddie Vedder está acertando cestas fora do Site, o estúdio de gravação onde o Pearl Jam está finalizando seu segundo álbum. É o Eddie torturado, aquele com um vinco profundo entre as sobrancelhas.
“Sua vez”, chama Jeff Ament, o baixista do grupo. Ele lança a bola para Vedder, que dá um longo salto. A bola retumba na cesta e rola para longe. Quando Ament recupera a bola, Vedder já desapareceu dentro do estúdio. Sua mente está numa nova música, “Rearviewmirror”. É o último dia de gravação no Site, e o destino da faixa está em perigo. É uma música sobre suicídio... mas é muito “contagiante”.

(...)
Sentado num café no centro de Seattle, algumas semanas depois, Stone Gossard analisa a natureza inflamável da banda. "Acho que estamos indo bem", ele diz, no ritmo cortado de um atleta. "Acho que fizemos um grande álbum. Ninguém aqui está comprando limousines e se achando a melhor banda do mundo. Existe um equilíbrio natural na banda onde cada um precisa do outro. Cada um vê as coisas do seu próprio ângulo, e todos os ângulos são os arquétipos das coisas que você precisa para ter cobertura".
E ele conhece as críticas sobre o sucesso do Pearl Jam. "Se alguém quer dizer 'Vocês eram minha banda favorita, mas ficaram muito grande' - para mim, o problema em ficar muito grande não é, intrinsecamente, ficar muito grande e de repente parar de tocar música boa", diz Gossard. "O problema é que quando você fica muito grande, você para de fazer as coisas que costumava fazer. Apenas ser grande não significa que você não pode ir para o porão e escrever uma boa canção. Acho que as pessoas são capazes de ser bem maior numa escala radical". Ele ri. "Muitas pessoas por aí são capazes de ser grandes, mas não se dão a chance".

(...)
Até cerca de um mês antes do lançamento, o álbum ia se chamar Five Against One. O nome surge durante uma reunião num quarto de hotel em Roma, enquanto a banda aprova a mixagem final do disco. Já existem interferências da gravadora. Dá pra aumentar os vocais do Eddie? E tem a questão do vídeo. Podemos decidir sobre o diretor?  E as entrevistas para a impressa. Vocês precisam fazer algumas. As respostas para as perguntas são Na verdade não, Não e Depois. Decisões rodopiam em torno deles a toda hora, mas o Pearl Jam quer fazer do seu próprio jeito. O título do álbum parece apropriado. A frase surge de uma nova música, "Animal".
"Para mim, esse título representa muitas lutas que você enfrenta ao gravar um disco", diz Gossard, que escolheu a frase. "Sua própria independência - sua prória alma - contra todo o resto. Nessa banda, e eu acho que no rock em geral, a arte de se comprometer é quase tão importante quanto a arte da expressão individual. Você pode ter cinco grandes artistas na banda, mas se eles não podem se comprometer e trabalhar juntos, você não tem uma grande banda. Pode significar algo completamente diferente para o Eddie. Mas quando escuto aquela letra, faz muito sentido pra mim."


*

E por falar em Rolling Stone e Cameron Crowe, não dá pra não lembrar de Quase Famosos, filme que conta a história do próprio diretor, quando, ainda adolescente, começou a escrever para a revista. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ser transparente

"Que vocês consigam não segurar o choro quando o corpo quer chorar, não esconder a gargalhada ou a piada mais inútil quando o lábio quer sorrir e que não se tornem seres tão mascaradamente invencíveis. Tem vezes que é melhor  perder a batalha do que continuar com seres que lutam com os olhos fechados e vivem contaminados por seus insetos interiores. É preferível explodir em doçura do que acumular escudos e insatisfações. Perder a luta pode ser ganhar a paz. E com bandeira branca os dias se tornam mais limpos e leves para escrevermos a nossa história."

(Ivan De Stefano, Vire o Verso)

domingo, 22 de abril de 2012

Sete anos no Tibet

Primeira entrevista com Kundun

Eu voltava à cidade, deixando o cavalo ir passo a passo; e remoia essas ideias. Chegara quase aos arredores de Lhasa, quando me alcançou, esbaforido, um soldado da guarda do corpo. Procuravam-me, em toda a cidade — disse-me ele — e eu tinha de voltar imediatamente ao Palácio de Verão. O meu primeiro pensamento foi que a instalação do cineminha não funcionasse; porque a hipótese do rei, ainda sob tutela, se sobrepor a todas as convenções e mandar-me chamar parecia-me absurda. Dei volta, no mesmo instante e, pouco depois, estava no Norbulingka já então silencioso e sossegado. À porta do jardim esperavam-me alguns monges. Mal me avistaram, puseram-se a pestanejar furiosamente, indicando-me a entrada do jardim interior. Por mais vezes que houvesse passado ali, durante o meu trabalho, nesse momento a idéia de transpor aquele limiar causava-me uma sensação estranha. Nisso, Lobsang Samten veio receber-me; cochichou-me alguma coisa ao ouvido e meteu-me na mão um laço branco. Já não havia dúvida: seu irmão queria ver-me.
Dirigi-me logo para a câmara de projeção. Antes que eu pudesse entrar, puxaram de dentro a porta e eu vi-me diante do Buda vivo. Apesar da surpresa, curvei-me profundamente e apresentei o meu laço branco. Ele tomou-o na mão esquerda e benzeu-me com um gesto impulsivo da direita, um gesto que não se parecia com a cerimoniosa imposição das mãos; dir-se-ia antes a expressão impetuosa do estado de ânimo duma criança que afinal consegue impor a sua vontade. Na sala, aguardavam-me, de cabeça baixa, três abades: os três homens de confiança do rei-deus. Eu os conhecia bem; não vieram receber-me, e não me escapou a  frieza com que responderam ao meu cumprimento. Não lhes agradava, naturalmente aquela intrusão nos seus domínios; contudo, nunca ousariam contrariar abertamente o Dalai Lama.
O jovem soberano mostrou-se, pois, tanto mais cordial. Estava radiante; e foi largando as perguntas, uma atrás da outra. Acolhia-me, como um ser humano que, anos a fio, meditou sozinho vários problemas e tem finalmente com quem falar, alguém que ao mesmo tempo responda a tudo. Não me dava tempo para pesar as respostas. Arrastou-me logo para o projetor; queria passar um filme que o interessava desde muito tempo: um documentário da capitulação japonesa. Mandara os abades à sala de espetáculos; eles seriam o público.
(...)
Atravessei o jardim deserto, puxei o ferrolho do largo portão, mal acreditando que estivera quase cinco horas conversando com o rei-deus do país dos Lamas. Um jardineiro fechou o portão atrás de mim; e a guarda — que, entretanto, mudara várias vezes — apresentou-me armas, um tanto intrigada. Pus-me em sela e tomei lentamente o caminho de Lhasa. Não fosse o embrulhinho dos bolos, que me ficara na mão, eu pensaria que fora tudo um sonho. Qual dos meus amigos me prestaria crédito, se eu lhe contasse que passara horas, dialogando a sós com o Buda vivo? Qualquer deles me responderia apenas com um sorriso de piedade, dizendo consigo: "Pobre doido!"

Amigo e mestre do Dalai Lama

Foi para mim verdadeira felicidade a bela missão que se me ofereceu.
Sim, transmitir a esse menino inteligente a ciência e os conhecimentos do mundo afigurava-se-me uma função realmente valiosa.
Nessa mesma noite, procurei revistas que tratassem pormenorizadamente da construção dos caças a jato, assunto em que me vira várias vezes em apuros, na entrevista com o Dalai Lama, e que prometera explicar, na próxima vez, baseando-me em diagramas. Mais tarde, tive de preparar a matéria sobre a qual versaria o nosso diálogo; desejava sistematizar um pouco a avidez de saber do jovem rei. Muitas vezes, o meu plano gorava, porque ele formulava perguntas que nos conduziam a setores muito diferentes; não me restava então senão responder e explicar, conforme podia. Em relação à bomba atômica, por exemplo, tive de explicar os elementos, o que acarretou uma preleção sobre os metais. Para estes, não havia denominações em idioma tibetano; tive, pois, de dar muitos pormenores e, dentro em pouco, as perguntas caíram em cima de mim como uma avalanche.
Assim comecei uma nova vida em Lhasa. A minha existência passou a ter uma finalidade; e eu me livrei da insatisfação, do sentimento de não viver completamente. Não abandonei as minhas ocupações anteriores; continuei a colecionar notícias, a desenhar mapas. Mas os dias me pareciam demasiado curtos e, não raro, eu trabalhava até alta noite. Negligenciava as diversões, os passatempos, porque precisava dispor de tempo, quando o Dalai Lama me mandava chamar. Às reuniões dos meus amigos eu já não chegava de manhã, segundo o costume; só aparecia às últimas horas da tarde. Mas isso não me doía como uma renúncia; eu vivia muito feliz, na consciência de haver encontrado um objetivo. As horas, que passava com o meu régio discípulo, eram muitas vezes tão instrutivas para mim como para ele. Eu ia adquirindo um grande conhecimento da história do Tibete e da doutrina de Buda, setores em que a cultura do Dalai Lama era profunda. Mantínhamos freqüentemente, horas a fio, debates religiosos; e ele estava plenamente convencido de que me converteria ao budismo. Dizia-me que, justamente então, se entregava ao estudo de obras de antiquíssima sabedoria sobre os vários aspectos da separação da alma do corpo. Efetivamente, a história do Tibete menciona muitos santos que tinham o dom de fazer o seu espírito agir a centenas de milhas de distância, enquanto o seu corpo permanecia mergulhado em profunda meditação. O jovem Dalai Lama acreditava que, graças à sua fé e com o auxílio dos ritos prescritos, poderia atuar em localidades distantes, como por exemplo Samye. Quando atingisse esse ponto, mandar-me-ia para lá e, de Lhasa, dirigiria as minhas ações. Lembro-me de que eu me ria e respondia: "Sim, Kundun; quando fizeres isso, eu me tornarei budista".

(Sete anos no Tibet, Heinrich Harrer)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quero ser Adélia

E eu não sabia que minha história 
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
(Carlos Drummond de Andrade)

"É muito difícil a pessoa se dar conta de que todos nós, artistas ou não, pessoas pobres ou ricas, nobres ou plebeias, só temos o cotidiano. E o cotidiano de todo mundo é absolutamente ordinário. Ele não é extraordinário. (...) A cada um de nós cabe a vida comum, o cotidiano. E eu tenho absoluta convicção que é atrás, que é através do cotidiano que se revelam a metafísica, a beleza.
(...) A gente quer uma vida heróica. Nós todos aspiramos a uma vida heróica. E fala: 'Deus me livre dessa vidinha minha, uma vidinha sem nenhum encanto'. (...) O cotidiano é na poeira, e para todos nós. E o mais bacana que tem é a gente tirar o nosso heróico, o nosso heroísmo deste cotidiano. (...) O nosso heroísmo é aqui, é no pequenininho, é  naquela paciência impossível de ter que eu tenho que ter. Fala: 'Deus me livre lidar com esse doente, com isso, com aquilo. Eu queria viver como...'. E você bota um personagem bem famoso. O personagem não existe. Caiamos na real. Bonita é a nossa vida.
(...) Admirar-se de um bezerro de duas cabeças, qualquer débil mental se admira. Mas admirar-se do que é natural, só quem tá cheio do Espírito Santo. É o outro olhar, é a sensibilidade. E o mundo é magnífico. É bom demais estar vivo, é bom demais. E eu quero essa vidinha. Essa vidinha. Essa é que é a boa.  Com todas as chaturinhas dela, as coisas difíceis. Mas é maravilhoso, porque quando você cai nesse lugar aí, você aceita a sua vida. Então você não sai mais à procura de heroísmo extraordinário. (...) Nós todos queremos que a nossa vida, o nosso currículo, tenha um ato heróico, e às vezes o ato heróico de cada vida é o mais anônimo, o mais silencioso, só Deus sabe."

Entrevista com a poeta Adélia Prado no programa Sempre um Papo:



Impressionista
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Parâmetro
Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.

Poema Começado no Fim
Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Casamento 
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Explicação de poesia sem ninguém pedir
Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Medianeras

"Tenho esse livro desde os 14 anos e é, com o perdão dos grandes escritores, o livro da minha vida. É a origem da minha fobia de multidões e criou em mim uma angústia existencial particular. Ele representa, de um jeito dramático, a angústia de saber que sou alguém perdido entre milhões. Os anos passaram, e ficou uma página sem resolver. Wally na cidade. Eu o encontrei no shopping, no aeroporto e na praia, mas na cidade, não o encontro. Sei que o nervosismo cega, mas não consigo achar. Então me pergunto: se, mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo encontrar, como vou encontrar quem eu procuro se nem sei como é?" (Mariana, personagem de Medianeras)



quarta-feira, 28 de março de 2012

O monge e o filósofo

O pai, Jean-François Revel, um dos principais pensadores franceses da filosofia contemporânea. O filho, Matthieu Ricard, um doutor em biologia molecular e pesquisador do Instituto Pasteur que abandonou tudo para se tornar monge budista. Apesar do título, que pode sugerir um daqueles livros de autoajuda oportunistas, O Monge e o Filósofo apresenta um rico debate entre a tradição espiritual do oriente e a tradição filosófica do ocidente. Metafísica budista, busca espiritual, o sentido da vida, a ação no mundo, são alguns dos questionamentos presentes no diálogo, em que budismo e filosofia são contemplados e confrontados a partir dos princípios que guiaram as escolhas de vida do monge e do filósofo. A seguir, um exemplo do embate de ideias:

M - (...) Nada existe em si, independentemente de outros fenômenos. Cada um dos elementos da cadeia de causa e efeito é, por sua vez, um composto de elementos fugidios em perpétua mudança. Este é um argumento que põe em evidência a não realidade dos fenômenos autônomos e permanentes, seja se trate de um Deus criador ou de um átomo que exista por si mesmo, sem causas nem condições, com independência dos outros fenômenos.
J.F. - Esta também é uma problemática que reaparece ao largo de toda a filosofia ocidental. Às vezes, os fenômenos existem e são a realidade, e é o que se chama escola empirista ou realista. Às vezes, os fenômenos são uma ilusão total, e é o que se chama o idealismo absoluto, a filosofia de Berkeley, por exemplo, no século XVIII. Outras vezes, os fenômenos são um caos de coisas que se sucedem, mas nas quais a relação causa e efeito é completamente ilusória: é a filosofia de Hume. E às vezes, o fenômeno não é a realidade em si, mas uma espécie de síntese, um encontro entre a realidade em si que não conhecemos, que está atrás dos fenômenos, e a atividade construtora da mente humana; uma espécie de resultado intermediário entre a matéria-prima oferecida pela realidade em si e a capacidade de elaboração da mente humana. Dito de outro modo, é ao mesmo tempo real, oferecido metade pelo mundo exterior, e metade construído pelo espírito humano. Tal é, resumida grosseiramente, a teoria de Kant em Crítica da razão pura. Todos os casos foram tratados, portanto, na filosofia ocidental. Na minha opinião, não creio que isto seja um verdadeiro problema. Se os fenômenos não existem no budismo, o que é que existe?
M - O budismo adota uma via intermediária. Não nega a realidade dos fenômenos no mundo relativo das percepções, mas o fato de que existam entidades permanentes por trás dos fenômenos. Por isso se fala de um "caminho do meio", que não cai nem no niilismo, para o qual nada existe fora das nossas percepções - tudo é nada -, nem no "eternalismo", sem dúvida o realismo ao qual você se refere, para o qual existe uma realidade única e independente de qualquer percepção, que estaria composta por entidades existentes em si. O tipo de entidades sólidas que o budismo rejeita são, por exemplo, as partículas indivisíveis da matéria e os instantes indivisíveis da consciência. Coincidimos assim com a formulação dos físicos modernos, que abandonaram a ideia de partículas comparáveis a pequenas balas de canhão ou a massas infinitamente pequenas. O que se chama massa ou matéria é antes uma espécie de condensação da energia.
(...) Quando o budismo fala da "vacuidade" dos fenômenos, diz que os fenômenos "aparecem", mas que em nenhum caso refletem a existência de entidades fixas. (...) Segundo o budismo, os átomos não podem ser considerados entidades fixas, que existem de uma maneira única e determinada; portanto, como poderia ter realidade fixa o mundo da manifestação bruta, supostamente integrado por estas partículas? Tudo isto contribui para destruir a ideia sobre a solidez das aparências. E, neste sentido, o budismo afirma que a natureza última dos fenômenos é vacuidade, e que esta vacuidade leva em si um potencial infinito de manifestações.
(...) ao demonstrar que não podem existir partículas indivisíveis, o budismo não pretende explicar fenômenos físicos no sentido em que a ciência entende atualmente: tenta antes romper o conceito intelectual da solidez do mundo fenomênico. Pois este conceito é o que faz com que nos aferremos ao "eu" e aos fenômenos e é, portanto, a causa da dualidade entre si mesmo e os demais, entre a existência e a não existência, entre o apego e a repulsão etc., e também a causa de todos os nossos sofrimentos. Em qualquer caso, o budismo entronca aqui, de uma perspectiva intelectual, com algumas teses da física contemporânea, e sua contribuição deveria ser incluída na história das ideias. Gostaria de citar, por exemplo, um dos grandes físicos de nossa época, Henri Margenau, professor da Universidade de Yale, que escreveu: "Ao final do século XIX, se afirmava que todas as interações implicavam objetos materiais. Na atualidade, isso já não costuma ser considerado uma verdade. Antes se pensa que se trata da interação de campos de energia ou de outras forças que são, em linhas gerais, não materiais". E Heisenberg dizia: "Os átomos não são coisas". Para Bertrand Russel: "A ideia de que há por aí uma bolinha, uma pequena massa sólida que seria o elétron, é uma intrusão ilegítima do senso comum, derivada da noção de tocar"; e logo acrescenta: "A matéria é uma fórmula cômoda para descrever o que ocorre ali onde, de fato, a matéria não existe, onde não há, portanto, nada". Por outro lado, sir James Jeans chegou a dizer em suas Rede's Lectures que "o universo começa a parecer-se mais com um grande pensamento que a uma grande máquina".