domingo, 19 de maio de 2013

O último voo do flamingo

Conselhos de minha mãe foram apenas silêncios. Suas falas tinham o sotaque de nuvem.
- A vida é que é a mais contagiosa - dizia.

Passou-se o tempo e eu saí da terra nossa, encorajado pelo padre Muhando. Na cidade, eu tinha acesso à carteirinha das aulas. A escola foi para mim como um barco: me dava acesso a outros mundos. Contudo, aquele ensinamento não me totalizava. Ao contrário, mais eu aprendia, mais eu sufocava. Ainda me demorei por anos, ganhando saberes precisos e preciosos.
Na viagem de regresso não seria já eu que voltava. Seria um quem não sei, sem minha infância. Culpa de nada. Só isto: sou árvore nascida em margem. Mais lá, no adiante, sou canoa, a fugir pela corrente; mais próximo sou madeira incapaz de escapar do fogo.

Minha mãe partira na curva da chuva, saindo a habitar a estrela de nenhumas pontas. A partir de então, a vida já não lhe comparecia: ela apanhara o último desencontrão. Ainda lembrei suas palavras amadurecendo uma esperança para mim quando eu de tudo descria:
- Não vê os rios que nunca enchem o mar? A vida de cada um também é assim: está sempre toda por viver.

Aqueles momentos junto ao meu velhote me puxavam para um incerto sono, quem sabe isso que chamam de ternura fosse aquele amaciamento. Esses breves tempos foram, hoje eu sei, a minha única casa. No estuário onde meu velho deitara seu existir eu inventava minha nascente.

Tudo isso eu lembrava quando cheguei à praia de Inhamudzi onde meu velho se exilara. O lugar não era distante e eu viajara mais lembranças que quilômetros. Desta vez, eu vinha quase sem mim, parecia um desqualquerficado. Meus saberes de cidade serviam para quê? Aqueles caminhos tinham serviços que não eram os mesmos das ruas urbanas: pareciam feitos apenas para passarem sonhos e poentes.

- No dia em que deixar de tomar banho.
Era o modo de nomear o dia de sua morte. Falava tudo por enfeite. Pois, nesse dia, dizia Hortênsia, quando estivesse toda por baixo das pálpebras, viessem lhe tirar posses e bens, esvaziassem-lhe a casa como vazia seria sua lembrança. A sua retirada do mundo dos viventes passou a ocupá-la por demasia. Em tudo e nada ela se despedia. Esbanjava adeuses. Saía à casa de banho, ia à cozinha: não se retirava sem as devidas vênias. Encenando o definitivo.

Quando nascemos sabemos tudo, mas não lembramos nada. Depois, crescemos, vamos ganhando lembrança e encolhendo sabedoria.

O tamarindo mais sua sombra: aquilo era feito para abraçar saudades. Minha infância fazia ninho nessa árvore. Em minhas tardes de menino, eu subia ao último ramo como se em ombro de gigante e ficava cego para assuntos terrenos. Contemplava era o que no céu se cultiva: plantação de nuvem, rabisco de pássaro. E via os flamingos, setas rapidando-se furtivas pelos céus. Meu pai sentava em baixo, na curva das raízes, e apontava os pássaros:
- Olha, lá vai mais outro!

- Seu pai não tem comportamento.
O velho Sulplício desvalorizava: sua mãe é como o grilo - tem alergia a silêncios.
E se enganava ao pensar que ele nada fazia. Porque ele, consoante anunciava, andava azafamado.
- Ando aprender a língua dos pássaros.

- Sabe o que dizia sua mãe? Que o melhor lugar para se chorar era a varanda.
E tinha sentido: a varanda. À frente estava o mundo e seus infinitos; atrás estava a casa, o primeiro abrigo. Com um gesto largo, meu velho anunciava o final daquela conversa.

(O último voo do flamingo, Mia Couto)

2 comentários:

Paula Gomes disse...

Que maravilha de texto!!
(lembrou-me Manoel de Barros...)

Rose Marques disse...

Sim, sim!

Só conhecia o Mia Couto por meio de citações (que sempre me lembravam Manoel de Barros...).

Não dá pra descrever o imenso prazer que foi finalmente conhecê-lo.