segunda-feira, 13 de maio de 2013

Teologia do empreendedorismo

Ao lados das teologias da autoestima e da prosperidade, atualmente reina a teologia do empreendedorismo, em que Deus é substituído pelo Sucesso. O discurso do vitorioso, do bem-sucedido, do empreendedor, aqui desconstruído com o máximo de ironia pelo historiador Leandro Karnal:

Hoje, empreendedorismo é a pedra de toque de todas as pessoas, especialmente no mercado, para entenderem que sucesso e fracasso só podem existir se você não tiver ou não conseguir controlar seu empreendedorismo. Empreendedorismo é a chave do futuro. Empreendedorismo é tudo. Eu vou demonstrar a vocês que a ideia de empreendedorismo, nascida numa divisão tipicamente norte-americana entre winners e losers, a ideia de empreendedorismo é a das ideias teológicas a mais insidiosa, porque traz para dentro de mim a censura. Se eu fracassei a culpa é minha. É a internalização absoluta dessa censura. O sucesso é minha responsabilidade, o fracasso é minha culpa. Ele ajuda as pessoas porque ele estabelece que coragem, ousadia, autoestima, iniciativa, fazem parte do sujeito vitorioso. Isto é o empreendedorismo como processo. O novo homem que atinge a salvação não é mais São Francisco, não é mais Santo Antônio, não é mais Tomás de Aquino, mas é o empreendedor. Ele é o modelo de uma teologia imanente, uma teologia da matéria, que atingindo aquele ponto leva os outros à felicidade.
Este novo homem adquire a salvação mediante sua iniciativa pessoal, tal como o homem medieval, mas não é uma iniciativa pessoal em busca de um além, mas é de um hic et nunc, de um aqui e agora. E o inferno dessa teologia é o fracasso financeiro e pessoal. Para isso, há livros sobre empreendedorismo. Para isso há treinadores pessoais que fazem coach, que ficam dizendo "você precisa confiar em você", "você precisa ter metas", "você precisa se desenvolver", "você precisa colocar essas metas e repetir 'eu posso', 'eu sou vitorioso'". Isso que, há alguns anos seria tido como esquizofrenia ou bipolaridade, hoje é tido como consistência pessoal. O inferno atual é o fracasso. Vai para o inferno quem não tem iniciativa. Vai para o inferno quem não se planeja. Vai para o inferno a pessoa que não tem metas. Vai para o inferno a pessoa pessimista. Este é o inferno atual. Aquele pessimista que possivelmente seria salvo na Idade Média, hoje ele é o condenado.
Nós precisamos estabelecer medidas para esse empreendedor. Há uma nova soteriologia - sotero, em grego, salvador. Há uma nova teologia da salvação. Esta salvação não é mais uma salvação abstrata ou metafísica. Esta salvação é uma nova forma de evitar os seguintes  pecados, pecados que todo RH, que são os novos departamentos teológicos do planeta, sabem: quem não é pró-ativo, quem não colabora com a sinergia da empresa, quem não veste a camiseta, quem não tem metas, quem não recebe aquela notícia "vamos fazer um treinamento sabe lá onde", "oba! É tudo o que eu quero! Que bom! É a coisa que eu mais gosto", e assim por diante, quem não tem criatividade, e assim por diante, quem não sai da caixinha, e outras fórmulas catequético-teológicas. São fórmulas e essas fórmulas são feitas, como toda teologia, para prometer felicidade, como toda teologia, para dizer quem erra, quem é pecador, e como toda teologia, se baseia numa prática em grego, ascesis, ascese, que é a prática teológica. E para isso vocês precisam de atividades e novos cultos, e esses cultos litúrgicos, em qualquer empresa hoje se chamam reuniões. As reuniões, como toda liturgia, tratam de um tema abstrato. Tem que ter fé para acreditar na reunião. Existe um sacerdote oficiante e existe um rito. Este rito tem frases ditas por um e repetidas por todos. Há uns anos era "o Senhor esteja convosco", "Ele está no meio de nós". Hoje é "bem-vindos à nossa reunião" e as pessoas sorriem porque é importante ser feliz. Pelo menos é importante parecer ser feliz para fazer parte da equipe, porque essa não é uma equipe de losers, é uma equipe de winners. Gente vitoriosa cresce.
(...) Dentro dessa ideia do empreendedorismo, é muito curioso que nós nunca fizemos tantas coisas e nunca fomos tão improdutivos na história humana.

(Os velhos e os novos pecados, Leandro Karnal, no Café Filosófico)

2 comentários:

Paula Gomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paula Gomes disse...

ótimo post!
confesso que essa teologia não me atrai nem um pouco.
Acho que estou na contramão do jogo todo ( se é que é possível;). Há uma inquietação em mim que realmente quer estar fora dessa visão contemporânea de sucesso.